Por favor, preencha a atmosfera com a vibração sublime dos Santos Nomes:
Hare Krsna Hare Krsna Krsna Krsna Hare Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare

segunda-feira, 8 de junho de 2009

São Cipriano

O Santo da Quimbanda

 

Por Edmundo Pellizari - Jornalde Umbanda Sagrada - 05 - 2009

 

Venerado pela igreja, adorado pelos feiticeiros, respeitado pelos magos... 

São Cipriano, bispo de Antioquia, passou para a história co­mo um már­tir e ganhou a fama co­mo o mago mais conhe­cido do mundo. 

 

Nascido no século III d.C., segundo a len­da, ele logo entrou para a irmandade dos magos depois de uma estadia entre os persas. 

Na sa­grada terra do culto do fogo, ele aprendeu as ar­tes adivinhatórias e in­vocatórias. 

Os ances­trais espíritos e gênios eram conhecidos por Ci­priano, que mantinha con­tato fre­qüente com o Mundo Invisível.

 

Voltando para sua cidade natal, Ci­priano começou exercer sua ren­tável pro­fissão. 

Logo adquiriu fama e era pro­cu­ra­do por nobres, comerciantes e guer­rei­ros.

Certo dia um cavalheiro apaixo­nado pe­diu um feitiço amoroso, um “filtrum”, co­mo chamamos em magia natural. 

O al­vo era a bela e jovem Justina, nobre vir­­gem cobiçada por muitos ricos senho­res.

 

Justina havia sido recentemente con­ver­tida a uma nova e estranha religião... 

Seus seguidores adoravam um judeu cru­cificado da Palestina que tinha feito muitas curas e profecias. 

Aos olhos dos antio­que­nos isso era até engraçado.

Por que adorar um homem, se existiam tantos deu­ses e gênios?

 

Cipriano preparou um filtrum e nada acon­­teceu.

O cavalheiro apaixonado re­cla­­mou e exigiu o dinheiro de volta. 

Nosso mago, muito contrariado e não acostu­ma­­do a falhar, refez a poção e adicionou um conjuro especial. 

 

Nada! 

 

Agora a coisa era para valer! 

 

O Mestre Cipriano convocou o Rei dos Gênios em pes­­soa.

 

Dentro do círculo mágico ele or­de­­nou e o terrível Jinn se fez presente. 

 

O gênio explicou que Justina era serva de uma entidade de maior magnitude e nada poderia fazer... 

Dito e feito.

 

Movido pela curiosidade Cipriano vai até Justina. 

Estabelece uma rica conversa com ela e percebe na garota uma luz espe­cial. 

Dias depois, o poderoso Cipriano se con­vertia ao Cristianismo primi­tivo,

que nesta época era uma re­ligião cheia de magia, sa­be­doria e simplicidade. 

 

Afinal, o Cristianismo nas­cente era o her­deiro da religião dos velhos ma­gos da Pérsia. 

Não esta­vam os três grandes ma­gos persas diante do me­nino Jesus na noite de Na­tal?

 

Cipriano e Justina mor­rem juntos durante a perseguição aos cristãos. 

Séculos depois, curan­dei­ros e benzedores eu­ro­pe­us vão pedir a Cipria­no, que virou santo, fa­vo­res e saberes.

 

O culto de São Cipriano chegou ao Brasil com os degredados portugueses perseguidos pela Inquisição.

 

Na memória eles traziam as fórmulas, orações e magias ciprianas.

Bem mais tarde os primeiros “livros de São Cipriano” chegaram aqui.

 

Com a chegada dos negros escravos, os Mulojis (xamãs) bantus tomaram conhe­cimento da tradição do mago de Antioquia. 

Boa coisa! 

Na Kimbanda Cipriano era con­siderado um Makungu (ancestral divi­ni­zado) e digno de culto.

Em Angola os Mu­lojis já cultuavam Santo Antonio, que se encarnou numa profetisa bantu cha­ma­­da Kimpa Vita. 

Por isso, dentro do cul­­to de Cipriano os xamãs botaram muitas mirongas e mandingas.

 

O tempo passou e a Kimbanda virou Quimbanda.

 

Elementos da feitiçaria ocultis­ta e mesmo da magia negra penetraram nos ensinamentos dos sábios Tios e Tias africanos.

 

São Cipriano entrou nos mistérios da noite.

O respeito virou medo e assombro. 

O santo ganhou Ponto Cantado, Riscado e Dançado. 

Pulou do altar para o chão de terra, virou chefe de Linha e Falange, vestiu toga negra e até adquiriu um gato preto! 

 

Na Lua Cheia de agosto ele tem festa à meia-noite, junto com a Comadre Salomé e os Compadres Bode Preto e Ferrabrás.  

Até uma Fraternidade Mágica ele ganhou, quando Dom Fausto, um cu­randeiro,

encontrou um frade agonizando perto de um local desértico. 

 

Examinando o doente, ele notou que o religioso fora mordido por uma vene­nosa serpente e estava à beira da morte. 

Dom Fausto o carregou até sua casa e o curou com a ajuda de preciosas ervas. 

Como agradecimento, o frade presenteou o curandeiro com uma velha cruz de ma­deira. 

Noites depois, na pobre casinha de Dom Fausto, ocorreu um fato sobre­na­tural. 

Uma estranha e misteriosa luz ema­nou da cruz, preenchendo todo o am­biente. 

O curandeiro acordou e viu, ao la­­do da cruz iluminada, a figura de um velhinho barbado com mitra na cabeça.

O personagem que segurava um cajado, sorriu para ele e disse:

 

-“ Venho até você e peço...

Crie uma fraternidade de bons homens e mulheres, façam a caridade e curem em nome de Deus.”

 

O curandeiro, admirado, perguntou:

- “Quem é você?”

 

O espírito respondeu:

- “Sou Cipriano!”

 

Dias depois, Dom Fausto reuniu seus tios, alguns primos e contou o ocorrido. 

Nasceu assim uma Fraternidade de cura sob a proteção de São Cipriano.

Isto acon­teceu no século XVIII, em Dezembro de 1771.  

 

Durante algum tempo o piedoso gru­po só admitiu parentes.

Porém, se­gundo orientações espirituais, foram sendo convidadas pessoas de boa índole de ou­tras famílias e procedências.

 

Por tradição uma cidade mágica era escolhida para sediar a Fraternidade. 

O critério da escolha sempre foi motivado por estranhas leis estudadas na Radiestesia. 

Paraty (RJ) foi a cidade escolhida, pois, além das condições telúricas excelentes,

ela é  toda construída com sólido simbo­lismo maçônico.

 

Coincidentemente, a re­gião também tinha forte presença kimban­deira e quimbandeira,

que com o tempo chegou até a receber os místicos cultos da Cabula e da Linha das Almas.

 

Hoje a cida­de não fica por menos, já que conhecemos algumas irmandades de iniciados caba­listas,

templários e yogues que se estabe­leceram por lá.

 

Na Quimbanda os espíritos de alguns pretos velhos de origem bantu se filiam na Linha de São Cipriano.

Estas são almas de antigos mandingueiros, feiticeiros (aqui com o sentido de xamã) e kalungueiros.

Todos mestres nas artes da cura e da magia.

Muitos até adotam o nome do Pa­­trono:

Pai Cipriano das Almas, Pai Ci­priano Quimbandeiro, Pai Cipriano de Angola...

 

Estas entidades recebem ofe­rendas na kalunga pequena, perto do Cruzeiro.

Também são ofertadas nas por­tas das igrejas e capelas.

 

Oferendas: Velas brancas ou brancas e pretas, marafo, café preto e tabaco.

 

Uma Linha pouco conhecida, mas também ligada a São Cipriano, se chama Linha dos Protetores.

Neste grupo tra­ba­lham espíritos de velhos magos europeus, ciganos curandeiros e misteriosas entida­des do fundo do mar.

 

São Cipriano está vivo e é do bem.

 

As receitas exóticas dos Livros de São Ci­priano

(Capa de Aço, Capa Preta, Capa Vermelha, etc...)

jamais foram praticadas ou escritas por ele.

Elas são uma triste con­­tribuição da magia negra européia.

 

Os segredos de São Cipriano passa­ram para os Mulojis da Kimbanda e

foram repartidos com alguns adeptos da Quim­banda.

Contudo, ainda existe o mistério.

Quais seriam estes segredos?

 

Como diz um velho Ponto Cantado de São Cipriano:

 

“Santo Antonio é mandingueiro,

Santo Onofre é mirongueiro.

Ai, ai, ai, meu São Cipriano...

Negro que sabe fazer bom feitiço,

Faz em silêncio, fala pouco e é quimbandeiro!”