Por favor, preencha a atmosfera com a vibração sublime dos Santos Nomes:
Hare Krsna Hare Krsna Krsna Krsna Hare Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare

terça-feira, 9 de outubro de 2007

CIGANA SARITA

CIGANA SARITA

"Preconceito esse tão grande e revestido de tamanha ignorância que certamente muitas

vezes seria tratada como verdadeiro "demônio" sendo expulsa como tal. Mesmo assim, sabia que

teria que atuar dentro da lei e ignorando tudo isso, trabalhar com muito amor, auxiliando os

encarnados a se curarem das mazelas, pois só assim curaria as suas que estavam impressas em

seu átomo primordial, carecendo de urgente reparo."

Sarita acordava sentindo o cheiro das flores que trazido pelo vento que balançava a alva

cortina da janela. O sol estava radiante lá fora e embora ela já estivesse sentindo-se bem melhor,

ainda não tinha coragem de sair da cama. O quarto aconchegante na sua simplicidade, era

convidativo ao descanso.

Absorta em seus pensamentos, nem percebeu a presença do enfermeiro que entrara com o

seu desjejum e que parado a observava. Olhava os pássaros que pulavam de galho em galho num festival de alegria, como a saudar a vida, quando foi desperta pelo " bom dia" de Raul.

Oh...desculpa eu estava distraída.

Encontrá-la acordada é muito bom. Vamos ao desjejum pois hoje nós vamos levantar desta

cama e ensaiar os primeiros passos no seu novo mundo.

Não me sinto capaz de caminhar ainda. Na verdade não sinto minhas pernas.

Sarita, já conversamos sobre isso. É apenas impressão trazida no seu corpo mental. Você

só precisa tomar uma decisão firme que quer caminhar e assim se processará. Essas pernas que

te acompanharam além túmulo são saudáveis. Foram longos anos de dor e sofrimento, mas agora tudo acabou, é preciso que se conscientize disso e reaja.

Com a paciência e disciplina de um instrutor, Raul conseguiu com que Sarita desse seus

primeiros e cambaleantes passos. E em poucos dias entusiasmada com a beleza do local,

esqueceu da suposta limitação e já caminhava feliz por aquele maravilhoso jardim, que mais

parecia um bosque.

Passara-se alguns anos do calendário terreno desde essa época e Sarita lembra-se ainda

emocionada de sua história triste com final feliz. Não havia como não recordar, especialmente

agora que estava em treinamento naquela colônia espiritual para assumir um trabalho junto aos

encarnados. Apreensiva lembrava da manhã em que foi convidada a freqüentar os bancos

escolares, por seu " mestre-anfitrião" . Como estivesse já ambientada com o local e sabedora de

como eram distribuídas as funções de acordo com a afinidade e principalmente necessidade de

cada espírito, sabia perfeitamente que não seria chamada ao trabalho de "anjo-de-guarda" , mas

tendo a certeza de que suas funções se dariam no plano terreno, isso a atemorizava um pouco,

pela experiência da última encarnação.

No curso, os ensinamentos todos recebidos eram perfeitamente adaptados ao aluno de

acordo com as experiências trazidas e no final deste, Sarita não tinha mais dúvidas. Trabalharia

nas fileiras da nova religião que se instalava no país onde vivera sua última encarnação, a

Umbanda. Pelo seu conhecimento magístico mal aproveitado, teria que direcioná-lo agora para se fazer cumprir a lei. Em breve seria apresentada ao médium com quem trabalharia como Pomba Gira, mas de antemão já sabia que embora ele fosse umbandista, tinha preconceito com essas entidades. O desafio recomeçava.

Olhando a lua que bailava por entre as estrelas, Sarita deitada sobre a relva meditava,

fazendo uma retrospectiva de sua última encarnação. Lembra-se de sua infância feliz vivida junto

de muitas outras crianças, naquela vida nômade que levava sua trupe. A adolescência onde seus

"dotes" ou poderes mágicos se acentuaram e quando começou a ser a cigana mais requisitada

para ler as mãos das pessoas. Sua tenda, onde quer que estivessem, sempre tinha freguês certo e era dela que vinha a maior renda para a sobrevivência do grupo todo.

Após febre muito forte sofrida em função de uma infecção adquirida, Sarita sentiu que seus "

poderes" de adivinhação haviam sumido, mas de maneira alguma deixou aparentar isso ao grupo

ou a quem fosse e daí em diante passou a fingir e cobrar mais caro por isso. E o dinheiro fácil

passou a entusiasmá-la e como sempre fora muito vaidosa, agora podia se cobrir com as jóias mais caras e deslumbrantes e vestir-se com as sedas mais finas.

Tornou-se a cigana mais respeitada e logo assumiu o comando do grupo. A ternura

angelical daquela jovem agora desaparecia, dando lugar a um radicalismo quase maldoso quando agia em defesa dos seus. Seu povo era muito perseguido e discriminado naquelas terras e isso fazia com que Sarita procurasse ganhar muito dinheiro e para tal não media conseqüências, para com isso adquirir poder se impor diante das perseguições.

Numa emboscada que se fez passar por um acidente, Sarita desencarnou deixando seu

povo sem líder e desesperado. A dependência de seu povo era tamanha que não sabiam mais

pensar sozinhos e a morte daquela cigana a quem consideravam quase uma deusa os pegou

desprevenidos. E nesse desespero buscavam a ajuda do espírito de Sarita, pois acreditavam que

agora virara santa e que certamente, mesmo do outro lado, ela não desampararia seu povo. Em

função disso criaram cultos e os peditórios foram aos poucos, se espalhado além do povo cigano e o túmulo de Sarita virou santuário, com filas enormes de pessoas que se aglomeravam em busca dos milagres.

Ignorando a realidade do lado espiritual, não sabiam o mal que estavam fazendo aquele

espírito que desesperado se via fora do corpo carnal, mas grudado nele, sentindo sua deterioração.

Em desespero total e agarrada as suas jóias com as quais foi sepultada, Sarita pedia socorro. Os

amparadores espirituais lá estavam querendo ajudá-la, mas ela sequer os enxergava dentro do seu desespero e revolta pelo acontecido.

Ouvia toda a movimentação que se fazia fora de seu túmulo e por mais que gritasse,

ninguém a ouvia. Se existia inferno, o seu era esse. Tudo aquilo durou longos e tenebrosos anos,

até o dia em que seu túmulo foi assaltado durante a noite e os ladrões levaram suas preciosas

jóias. Em desespero, assistindo a tudo, nada podia fazer, restando-lhe apenas um monte de ossos.

Só então se deu conta de sua verdadeira situação e lembrou do que sua mãe a ensinara quando

pequena sobre a vida após a morte. A lembrança de sua mãe a fez chorar, implorando que ela

viesse tira-la daquele sofrimento. Depois disso desacordou e só depois de muito tempo

hospitalizada no mundo espiritual é que acordou, sabendo do isolamento que se fizera necessário em função das emanações vindas da terra, por causa de sua falsa "santificação"

Seu povo agora usava a imagem da idolatrada Sarita em medalhas que eram vendidas

como milagreiras, além de manter seu túmulo como verdadeiro comércio visitado por caravanas

vindas de lugares distantes. Lembrava do dia em que, já curada e equilibrada pode visitar aquele

lugar junto com seus amparadores, para seu próprio aprendizado, bem como das palavras sábias

de seu instrutor:

Filha, o mundo ainda teima em manter os mercadores do templo. Criam-se os milagreiros

que após o desencarne passam a ser santificados de maneira egoísta e mesquinha, preenchendo o vazio que a falta de uma fé racional se faz no coração dos homens. Mentiras mantidas por pastores que visando o brilho do ouro, traçam caminhos duvidosos e perigosos para suas ovelhas, dando com isso, imenso trabalho à espiritualidade deste lado da vida. Criam uma farsa que é mantida pelo desespero de pessoas ignorantes e sofredoras, obrigando-nos a formar verdadeiros exércitos de trabalhadores com disponibilidade de atendimento a essas criaturas. Mesmo assim, por mais errado que seja esse tipo de atitude, a Luz o aproveita para auxiliar os necessitados mantendo ali um pronto socorro. E fora o sofrimento do espírito "santificado" que se vê vivo e impotente do outro lado, aliado a distorção comercial, esses lugares servem para que muitos espíritos encontrem ali o portal de retorno.

Sarita tentando manter o equilíbrio e as emoções, via o intenso movimento de espíritos

trabalhadores, socorrendo os desencarnados que vinham em bando junto aos romeiros e

observava pela primeira vez como aconteciam os chamados milagres.

Uma senhora chorosa, ajoelhada ao pés do túmulo implorava pelo espírito de Sarita a cura

de sua filhinha que estava ficando cega devido a uma doença rara que exigia cirurgia caríssima,

longe de suas possibilidades financeiras.

A fé dessa mulher e o a amor por sua filha eram tão intensos que de seu cardíaco e de seu

coronário exalavam chispas luminosas que se perdiam no ar. Ao seu lado, dois espíritos

confabulavam analisando uma ficha com anotações e logo em seguida um deles, colocando a mão sobre a cabeça da mulher transmitiu-lhe vibrações coloridas que a acalmaram, intuindo-a a ter a certeza de que seu pedido seria atendido. Deixando algumas flores sobre o túmulo ela se retirou.

Curiosa, foi ter com os dois jovens, querendo saber o que realmente acontecia nesses casos.

Minha irmã, analisamos cada caso e dentro do merecimento de cada espírito e de acordo

com a fé e sinceridade de propósitos, sempre respeitando a lei e o livre-arbítrio das criaturas

envolvidas, procuramos auxiliar. Essa senhora será procurada por um grupo de estagiários de

medicina que mesmo como cobaia de seus estudos, levarão sua filha a cirurgia de que necessita,

retornando a ela a visão.

Ah, e certamente isso será atribuído a mim como mais um milagre.

A você? – indagou contrariado um dos jovens.

Sim...ah, me desculpem, não me apresentei. Sou a própria, a cigana Sarita.

Nossa, que surpresa!!! Muito prazer! Não é todo dia que se conhece uma "santa", brincou o

outro.

Com um sorriso amarelo, Sarita tentou em vão desconversar, pois agora a curiosidade deles

era maior do que a dela em saber detalhes de como tudo isso havia ocorrido. E longe dali, em lugar mais propício, junto a natureza eles trocaram válidas experiências.

Mas agora tudo isso eram lembranças. Aquele espírito em cuja última encarnação terrena

viera como uma cigana que se chamava Sarita, agora no mundo espiritual se comprometia e

assumir um trabalho difícil no qual sentiria de perto, novamente o preconceito dos seres humanos.

Preconceito esse tão grande e revestido de tamanha ignorância que certamente muitas vezes seria tratada como verdadeiro "demônio" sendo expulsa como tal. Mesmo assim, sabia que teria que atuar dentro da lei e ignorando tudo isso, trabalhar com muito amor, auxiliando os encarnados a se curarem das mazelas, pois só assim curaria as suas que estavam impressas em seu átomo primordial, carecendo de urgente reparo.

Enquanto seu médium girava no terreiro ecoando uma gargalhada que avisava a chegada

de pomba gira cigana, romeiros continuavam buscando no túmulo da Santa Cigana Sarita, o

milagre que ignoravam residir apenas dentro deles mesmos.

História contada por Vovó Benta

inserida no livro Causos de Umbanda II - no prelo - Editora do Conhecimento