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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Duas versões

“Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?
Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho
da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um
pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,
cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu
povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças
do homem vermelho.. Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem
quando vão caminhar entre as estrelas.
Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem
vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são
nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do
corpo do potro, e o homem. Todos pertencem à mesma família.
O grande chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver
satisfeitos.
Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos.
Portanto vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não
será fácil.
Esta terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o
sangue de nossos antepassados.
Se lhes vendermos essa terra, vocês devem lembrar-se de que ela á sagrada, e
devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e cada reflexo nas águas
límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo.
O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede.
Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças.
Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos
que os rios são nossos irmãos, e seus também.
E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer
irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes.
Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra,
pois é um forasteiro que vem a noite e extrai da terra aquilo de que
necessita.
A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue
seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se
incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa.
A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos.
Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser
compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos.
Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto. Eu não sei,
nossos costumes são diferentes dos seus.
A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque
o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco.
Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar das folhas na primavera ou o
bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não
compreendo.
O ruído parece somente insultar os ouvidos.
E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma
ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa à noite? Eu sou um homem
vermelho e não compreendo.
O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o
próprio vento limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho pois todas as coisas compartilham o
mesmo sopro, o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro.
Parece que o homem branco não sente o ar que respira.
Como um homem agonizante a vários dias, é insensível ao mau cheiro.
Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é
precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que
mantém.
O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar, também recebe seu último
suspiro.
Se lhe vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como
um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado
pelas flores dos prados.
Portanto vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra.
Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deverá tratar os
animais desta terra como seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo
qualquer outra forma de agir.
Vi um milhar de bisões apodrecendo na planície, abandonados pelo homem
branco que os alvejou de um trem ao passar.
Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro
pode ser mais importante que o bisão, que sacrificamos apenas para
permanecermos vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem
morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais
breve acontece com o homem.
Há uma ligação em tudo
Vocês devem ensinar a suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de
nossos avós.
Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com
as vidas de nosso povo.
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe.
Tudo o que acontecer a terra, acontecerá aos filhos da terra.
Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos. Isto sabemos: a
terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas
as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em
tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra.
O homem não tramou o tecido da vida, ele é simplesmente um de seus fios.
Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo deus caminha e fala com ele de amigo para amigo,
não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos apesar
de tudo.
Veremos. De uma coisa estamos certos, e o homem branco poderá vir a
descobrir um dia: Nosso Grande Espírito é o mesmo deus.
Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não
é possível.
Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o homem vermelho e para
o homem branco.
A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador.
Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos.
Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos seus próprios
dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela
força do deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes
deu domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho.
Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os
bisões sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os
recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens,e
a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde esta o arvoredo? Desapareceu.
Onde está a águia? Desapareceu.
Aí termina a vida e começa a mera sobrevivência.”
Este documento, dos mais belos e profundos pronunciamentos já feitos a
respeito da defesa do meio ambiente, é uma carta escrita em 1854 pelo chefe
Seatle ao presidente dos EUA Franklin Pierce, quando este propôs comprar
grande parte das terras de sua tribo, oferecendo em contrapartida a
concessão de uma outra ‘reserva’.
Tradução de Irina O. Bunning.

Breve Introdução
Apesar de ser chamado de "Chefe" Seattle, não havia hereditariedade entre os
Índios de sua estirpe. De tempos em tempo, diversos índios se distinguiram
em seus vilarejos por sua habilidades, quer por serem grandes caçadores,
quer por serem grandes pacificadores, quer serem Líderes para tempos de
crise. Seattle foi um destes últimos. E além de sua grande habilidade em
compreender, ao mesmo tempo, os desejos de seu povo e a mentalidade do homem
branco, ele se notabilizou por ser um notável orador em sua língua nativa.
Em 1854, por ocasião da proposta de acordo, ele deu esta rara peça de
oratória que abaixo transcrevemos.


Houve um tempo em que nosso povo cobria a terra como as ondas de um mar
batido pelo vento cobre seu chão repleto de conchas, mas há muito que aquele
tempo passou, juntamente com a grandeza das tribos que agora são nada mais
que uma triste memória. Não me entristecerei ou lamentarei acerca de nossa
intempestiva decadência, nem reprovarei meus irmãos cara-pálida por terem
acelerado tal fato, pois também temos tido algo com que nos culpar...
Nosso bom pai em Washington - porque eu presumo ser ele agora nosso pai,
assim como seu, desde que o Rei George moveu seus limites ao norte- nosso
grande e bom pai, digo, nos envia palavras de que se fizermos como ele
deseja, nos protegerá...
Seu Deus não é nosso Deus! Seu Deus ama seu povo e odeia ao meu. Ele dobra
seus fortes braços, dando sua amorosa proteção ao cara-pálida e o conduz
pela mão como um pai conduz a seu pequeno filho; mas Ele abandonou suas
crianças vermelhas- se realmente elas são dele. Nosso Deus, o Grande
Espírito, também parece ter-nos abandonado. Seu Deus faz seu povo crescer
forte diariamente. Logo encherá toda a terra. Nosso povo está desaparecendo
como uma maré em baixa que nunca retornará. O Deus do homem branco não pode
amar nosso povo ou Ele o protegeria..
. Nós somos dois povos distintos, com
origens separadas e destinos separados. Há pouco em comum entre nós.
Para nós, as cinzas de nossos antepassados são sagradas e seu lugar de
repouso é terra santa. Vocês, vagam ao longe das sepulturas de seus
antepassados e, aparentemente, sem pesar. Sua religião foi escrita em tábuas
de pedra pelo férreo dedo de seu Deus de forma que vocês não podem esquecer.
O homem vermelho nunca poderia compreender ou se lembrar disto. Nossa
religião são as tradições de nossos antepassados - os sonhos de nossos
homens velhos, transmitidos em solenes horas da noite pelo Grande Espírito,
e as visões de nosso gurus - estando escrita no coração de nosso povo.
Seus mortos deixam de amar a terra de sua natividade assim que falecem aos
portais das tumbas e viajam por além das estrelas. Logo, eles são esquecidos
e nunca retornam. Nossos mortos jamais se esquecem do belo mundo que lhes
deu a existência. Eles ainda amam os verdes vales, seus rios murmurantes,
suas montanhas magníficas, vales isolados, lagos forrados de verdes e baías,
e sempre, ansiando por ternura, afeiçoam-se pelos seres de coração solitário
e freqüentemente voltam da "Terra das Caçadas Felizes" para visitar, guiar,
consolar e confortá-los.
Dia e noite não podem conviver juntos. O homem vermelho sempre fugiu da
aproximação do homem branco, como a névoa matutina foge antes da chegada do
sol do amanhecer.
Porém, sua proposta parece justa e penso que meu povo a aceitará e se
retirará à reserva que lhes é oferecida. Então, nós moraremos apartadamente
e em paz, pois as palavras do Grande Chefe Branco parecem ser as da natureza
que fala à um povo imerso em densa escuridão .
Pouco importa onde nós passaremos o resto de nossos dias. Eles não serão
muitos. A noite dos índios promete ser escura. Não há sequer uma única
estrela de esperança que paire sobre o horizonte.
Ventos de vozes entristecidas gemem à distância. Um Destino severo parece
estar no rastro do homem vermelho, e onde quer que ele vá ouvirá os passos
de seu destruidor se aproximando e se preparará para conhecer sua destruição
assim como faz a ferida corça ao ouvir os passos de um caçador a se
aproximar...
Mas por que eu deveria lamentar o destino intempestivo de meu povo? Tribo
segue tribo e nação segue nação, tal qual as ondas do mar. É a ordem da
natureza, e lamentar é inútil. Seu tempo de decadência pode estar distante,
mas seguramente virá, pois até mesmo o homem branco cujo Deus caminhou lado
a lado e falou como de amigo para amigo, não pode estar isento do destino
comum. Então nós poderemos ser, finalmente, irmãos. Nós veremos.
Ponderaremos sua proposição e quando decidirmos, nós o deixaremos saber. Mas
se nós viermos a aceitá-la, eu aqui faço esta condição - que não neguem ou
molestem nosso privilégio de visitar a qualquer hora as tumbas de nossos
antepassados, amigos, e crianças. Cada pedaço desta terra é sagrado na
estimação de meu povo. Toda ladeira, todo vale, toda planície e arvoredo
foram abençoados por algum triste e feliz evento em dias já há muito
desaparecidos...
E quando o último homem vermelho tiver perecido, e a memória de minha tribo
tiver se tornado uma lenda entre os homens brancos, estas terras se
enxamearão dos invisíveis mortos de minha tribo, e quando o crianças de suas
crianças se imaginarem sós no campo, na loja, na rodovia, ou no silêncio dos
bosques virgens, elas não estarão sós. Em toda a terra há um lugar sequer
dedicado à solidão.
À noite quando as ruas de suas cidades e aldeias estiverem caladas e você as
imaginar desertas, elas se repletarão com aqueles que uma vez as encheram e
que ainda amam este linda terra. O homem branco nunca estará só.
Deixe-o tratar bondosamente meu povo, pois os mortos não são impotentes.
Mortos, disse eu? Não há nenhuma morte, apenas uma troca de mundos...

"Não ande atrás de mim, talvez eu não saiba te liderar.
Não ande na minha frente, talvez eu não queira seguí-lo.

Ande ao meu lado, para podermos caminhar juntos.&quo;
(Provérbio Ute)