Por favor, preencha a atmosfera com a vibração sublime dos Santos Nomes:
Hare Krsna Hare Krsna Krsna Krsna Hare Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Apometria


O termo Apometria vem do grego Apó - preposição que significa além de, fora de, e Metron - relativo a medida. Representa o clássico desdobramento entre o corpo físico e os corpos espirituais do ser humano. Não é propriamente mediunismo, é apenas uma técnica de separação desses componentes.

A Apometria é uma técnica de desdobramento que pode ser aplicada em todas as criaturas, não importando a saúde, a idade, o estado de sanidade mental e a resistência oferecida. É um método geral, fácil de ser utilizado por pessoas devidamente habilitadas e dirigentes capazes. Apresenta sempre resultado eficaz em todos os pacientes, mesmo nos oligofrênicos profundos sem nenhuma possibilidade de compreensão.

O êxito da Apometria reside na utilização da faculdade mediúnica para entrarmos em contato com o mundo espiritual da maneira mais fácil e objetiva, sempre que quisermos. Embora não sendo propriamente uma técnica mediúnica, pode ser aplicada como tal, toda vez que desejarmos entrar em contato com o mundo espiritual.

AS LEIS DA APOMETRIA

Primeira Lei: LEI DO DESDOBRAMENTO ESPIRITUAL.

Toda vez que, em situação experimental ou normal, dermos uma ordem de comando a qualquer criatura humana, visando à separação de seu corpo espiritual - corpo astral - de seu corpo físico, e, ao mesmo tempo, projetarmos sobre ela pulsos energéticos através de uma contagem lenta, dar-se-á o desdobramento completo dessa criatura, conservando ela sua consciência.

Segunda Lei: LEI DO ACOPLAMENTO FÍSICO.

Toda vez que se der um comando para que se reintegre no corpo físico o espírito de uma pessoa desdobrada, (o comando se acompanhando de contagem progressiva), dar-se-á imediato e completo acoplamento no corpo físico.

Terceira Lei: LEI DA AÇÃO À DISTANCIA, PELO ESPÍRITO DESDOBRADO.

Toda vez que se ordenar ao espírito desdobrado do médium uma visita a lugar distante, fazendo com que esse comando se acompanhe de pulsos energéticos através de contagem pausada, o espírito desdobrado obedecerá à ordem, conservando sua consciência e tendo percepção clara e completa do ambiente (espiritual ou não) para onde foi enviado. (Nota

importante: esta Lei é aplicada, de ordinário, em sensitivos que conservam a vidência, quando desdobrados.).

Quarta Lei: LEI DA FORMAÇÃO DOS CAMPOS-DE-FORÇA.

Toda vez que mentalizarmos a formação de uma barreira magnética, por meio de impulsos energéticos através de contagem, formar-se-ão campos-de-força de natureza magnética, circunscrevendo a região espacial visada na forma que o operador imaginou.

Quinta Lei: LEI DA REVITALIZAÇÃO DOS MÉDIUNS.

Toda vez que tocarmos o corpo do médium (cabeça, mãos), mentalizando a transferência de nossa força vital, acompanhando-a de contagem de pulsos, essa energia será transferida. O médium começará a recebê-la, sentindo-se revitalizado.

Sexta Lei: LEI DA CONDUÇÃO DO ESPÍRITO DESDOBRADO, DE PACIENTE ENCARNADO, PARA OS PLANOS MAIS ALTOS, EM HOSPITAIS DO ASTRAL.

Espíritos desdobrados de pacientes encarnados somente poderão subir a planos superiores dos astral se estiverem livres de peias magnéticas.

Sétima Lei: LEI DA AÇÃO DOS ESPÍRITOS DESENCARNADOS SOCORRISTAS SOBRE OS PACIENTES DESDOBRADOS.

Espíritos socorristas agem com muito mais facilidade sobre os enfermos se estes estiverem desdobrados, pois que uns e outros, dessa forma, se encontram na mesma dimensão espacial.

Oitava Lei: LEI DO AJUSTAMENTO DE SINTONIA VIBRATÓRIA DOS ESPÍRITOS DESENCARNADOS COM O MÉDIUM OU COM OUTROS ESPÍRITOS DESENCARNADOS, OU DE AJUSTAMENTO DA SINTONIA DESTES COM O AMBIENTE PARA ONDE,MOMENTANEAMENTE, FOREM ENVIADOS.

Pode-se fazer a ligação vibratória de espíritos desencarnados com médiuns ou entre espíritos desencarnados, bem como sintonizar esses espíritos com o meio onde forem colocados, para que percebam e sintam nitidamente a situação vibratória desses ambientes.

Nona Lei: LEI DO DESLOCAMENTO DE UM ESPÍRITO NO ESPAÇO E NO TEMPO.

Se ordenarmos a um espírito incorporado a volta a determinada época do Passado, acompanhando-a de emissão de pulsos energéticos através de contagem, o espírito retorna no Tempo à época do Passado que lhe foi determinada.

Décima Lei: LEI DA DISSOCIAÇÃO DO ESPAÇO-TEMPO.

Se, por aceleração do fator Tempo, colocarmos no Futuro um espírito incorporado, sob comando de pulsos energéticos, ele sofre um salto quântico, caindo em região astral compatível com seu campo vibratório e peso específico cármico (Km) negativo - ficando imediatamente sob a ação de toda a energia Km de que é portador.

Décima primeira Lei: LEI DA AÇÃO TELÚRICA SOBRE OS ESPÍRITOS DESENCARNADOS QUE EVITAM A REENCARNAÇÃO.

Toda vez que um espírito desencarnado possuidor de mente e inteligência bastante fortes consegue resistir à Lei da Reencarnação, sustando a aplicação dela nele próprio, por largos períodos de tempo (para atender a interesses mesquinhos de poder e domínio de seres desencarnados e encarnados), começa a sofrer a atração da massa magnética planetária, sintonizando-se, em processo lento mas progressivo, com o Planeta. Sofre apoucamento do padrão vibratório, porque o Planeta exerce sobre ele uma ação destrutiva, deformante, que deteriora a forma do espírito e de tudo o que o cerca, em degradação lenta e inexorável.

Décima segunda Lei: LEI DO CHOQUE DO TEMPO.

Toda vez que levarmos ao Passado espírito desencarnado e incorporado em médium, fica ele sujeito a outra equação de Tempo. Nessa situação, cessa o desenrolar da seqüência do Tempo tal como o conhecemos, ficando o fenômeno temporal atual (presente) sobreposto ao Passado.

Décima terceira Lei: LEI DA INFLUÊNCIA DOS ESPÍRITOS DESENCARNADOS, EM SOFRIMENTO, VIVENDO AINDA NO PASSADO, SOBRE O PRESENTE DOS DOENTES OBSIDIADOS.

Enquanto houver espíritos em sofrimento no Passado de um obsidiado, tratamentos de desobsessão não alcançarão pleno êxito, continuando o enfermo encarnado com períodos de melhora, seguidos por outros de profunda depressão ou de agitação psicomotora.

Iwa Pele: la representación del buen caráter

Texto de C. A. Alvarez

Iwa Pele es considerado por los Yorubas como la representación del buen carácter y está relacionada con la capacidad práctica de provocar cambios evidentes de energía. Iwa significa carácter, la energía de la vida.

En el Yoruba esto es de importancia suprema, ya que el carácter del hombre demuestra su corazón y Olodumare, el cual es llamado “el buscador de corazones” va en busca de estos.

Cuando decimos que una persona tiene buen Iwa, es porque en sus relaciones personales demuestra las cualidades correctas de un individuo bueno. Esto es uno de los conceptos básicos de la religión Yoruba, ya que el bienestar, su desarrollo en la vida incluso la extensión de su carácter será regido por Iwa.

La acciones diarias o el vivir cotidiano son producidos por el subconsciente, esto no es más que el reflejo de los hechos, pensamientos y actitudes de vidas pasadas reflejadas en la vida presente, por tanto podemos decir sin temor a equivocarnos que una mala persona, un criminal, un delincuente, el que viola las leyes de la sociedad, es alguien que ha venido de otras encarnaciones arrastrando el sufrimiento de estas actitudes, poniéndose peor cada vez hasta que este sufrimiento haya terminado.

Este proceso toma varias reencarnaciones para lograr el grado de pureza necesario perdido en vida anterior.

En cambio, una persona en armonía con la vida, está acorde con el principio universal y recibe de una manera acelerada las cosas buenas de la vida.

No debe confundirse el Iwa con la reputación. Nuestro Iwa se conoce por nuestra consciencia y es inmortal, viene de Oluddumare. La reputación, aunque parezca igual a Iwa, no es nada más que un término dado a nosotros por los humanos, por tanto es mortal y no representa lo bueno, ya que hay personas con buena reputación que no tienen ni buen alma ni buen corazón por lo tanto no es Iwa.

El Iwa es el recuerdo del alma y estos recuerdos son guardados en la mente que a su vez es dirigida por nuestro intelecto, en este proceso los pensamientos se dirigen desde uno hacia el más alto ego o intelecto donde podemos adquirir la habilidad de ubicar el espíritu y nuestro pacto con Oloddumare.

¿Qué parte de nuestro cuerpo tiene que ver con nuestro Iwa Pele?

Desde la antigüedad los grandes sacerdotes estimulaban dos centros importantes en nuestra cabeza, la glándula Pineal llamada en Yoruba (Ori Inu) y la glándula Pituitaria (Ori) ambas desempeñan un papel importante en la espiritualidad del hombre y funcionan como un puente entre el cuerpo y el espíritu. Entre las cejas tenemos localizada la glándula Pineal encargada de la memoria y la concentración de la conciencia sin pensamientos, de nuestra intuición, de dominio del espíritu sobre la materia y actúa como elemento de fusión entre nuestro consciente e inconsciente. Es conocida entre los monjes Tibetanos como el tercer ojo o centro de la clarividencia y la intuición, (Los Hindúes lo conocen como el Shakra Agna) este tercer ojo consta de las siguientes partes en la glándula Pineal: la parte más baja, llamada ojo único, este es el punto donde la consciencia espiritual del hombre es reflejada a través de su cuerpo físico.

El centro de glándula o subconsciente es donde se recibe los impulsos de la consciencia divina, estos controlan todas las actividades que tienen lugar en las glándulas y órganos del cuerpo, los latidos del corazón, la respiración etc.

La glándula pituitaria, situada en la base del cerebro descansa armoniosamente en su posición, en la llamada coronilla o hueso esfenoides: Este Shakra es conocido como Sahasara. Rige el Yo Superior, la inspiración, la consciencia cósmica la evolución y la unión con la divinidad, la transmutación y la consciencia de ser uno con el todo o su integración. Aquí se refleja el alma, el centro de la personalidad, la cual nosotros debemos purificar, es como un cristal delicado manchado a través de la pureza del Ego o los brillos del alma. La relación de impulsos que llegan a nuestra mente consciente, a través del subconsciente alcanzando a la consciencia superior activa llamada en su grado superlativo Alma en comunicación con el Creador.

La ley de causa y efecto es constituida o formada por el fluir de los pensamientos, de modo que la manera y el carácter hacen a un ser humano.

El buen carácter es un escudo de protección suficientemente sólido contra cualquier acontecimiento, por duro, difícil o extremo que parezca. Quien lo posee a nada teme. Hay un refrán muy antiguo:”El buen carácter es el salvaguarda del ser humano, los cobardes y temerosos carecen de protección debido a su mal carácter”.

En el corpus de Ifa, Orúmila nos expresa esto en los siguientes oddus :

OBBE-YONO

Venga y mire a los niños innumerables de Iwa.
Iwa lleva a los niños en sus brazos,
Venga y mire a los niños innumerables de Iwa.

El carácter es todo lo que se requiere, no hay ningún destino a ser llamado infeliz en Ife. El carácter es todo lo que se requiere.

El siguiente oddun, nos hace énfasis en la necesidad de honestidad, integridad y buen carácter, para lograr las riquezas de la vida.

OGUNDA -BEDE

Karangbada-Ákárá-ngbada!
Ilé O.wá ni mo wa
Ki owó titun o wa mi wa
Ki aya titun o wa ni wa
Ki o.mo. titun o wa ni wa ati be.e.be.e..
Bi o.mo.dé bafi ojú ba Alákárá a so. isu nu.
Ógúndásor’iire’ Ogbé, kiose orire fún mi.
Kanrangbada-Akara-ngbada!

Yo estoy en la casa de Owa.
Deja que el dinero nuevo me busque a mí.
Deja que las nuevas esposas me busquen a mí.
Deja que los nuevos hijos me busquen a mí.
Si un hijo ve a Alákara, él botaría su pedazo de Ñame.
Ogundasoriiref Ogbe, dame buena fortuna.

En Irete-di nos da a entender que el carácter bueno facilita los acontecimientos de la vida, las riendas de su vida permanecerán en su mano.

El carácter bueno es el que habilita la soga de la vida.
Para quedarse indestructible en la mano de uno
Así lo declaró el Oráculo a Orúmila
Quien por medio del carácter bueno
Iba a ganar la soga de la vida de las 401 divinidades.

OWORI-EDIN

Igual Ojuani Odi. No solo hay que tener buen carácter, si no ponerlo en práctica.

Otro oddun de Ifa nos habla de las personas que cegadas por el poder o que creen que debido a este la energía del universo es suya; manifiestan cambios que provienen de sus intereses personales, la arrogancia o la ira y no de su buen carácter de Iwa Pele, ejemplo de esto lo tenemos en Obe-Weñe, donde nos dice que el hombre es exaltado por la riqueza y al mismo tiempo los despojos de su carácter. Quien tiene mucho amor por la riqueza pierde su buen carácter.

En cierta ocasión los habitantes del mundo declararon que nada era más importante que el dinero y ellos descartarían cualquier cosa para correr detrás de él. Orula les dijo que debían pensar más en Ifa y no honrar tanto al dinero. El conocimiento de este les llevaría al disfrute de una vida estable saludable y de largos años de existencia.

Les dijo: “tienen mucho dinero, pero están locos, cojos, ciegos, enfermos ¿para qué les sirve el dinero?

Iwa Pele es un estado del ser o la manera de ser. La mayoría de nuestro tiempo vivimos dentro de Iwa Pele. Este es un estado filosófico que se alcanza en la práctica de nuestra vida diaria.

Dentro de este estado poderoso que nos sostiene, podemos obtener más ashe del que nosotros podemos imaginar, es el Yo interno que nos permite decidir actuar con integridad, incluso en los momentos en que es difícil hacerlo.

Podemos aprender, estudiar, memorizar, cantar sabernos todos los rezos, todo lo referente a los orishas, pero si no ejercemos el Iwa Pele nunca tendremos éxito. Las palabras, los cantos, las ideas no se extenderán más allá de las paredes de cuarto en que se hacen.

Como mencionamos al principio el Iwa Pele se refiere a los corazones y almas buenas, el carácter moderado que nos permite tomar decisiones cruciales, tanto personales como que afecten el contexto del mundo en que vivimos. En síntesis representa lo que es correcto universalmente y no algo arbitrario que pueda alimentar nuestro propio Ego o carácter; el único camino que nos permitirá ocupar nuestro lugar en el mundo de Oloddumare y cumplir con nuestros destinos.

Fonte: http://www.olofin.com/

Encruzilhadas

Este mistério que envolve as encruzilhadas é tradição brasileira ou tem importância também em outros lugares?

Sempre foi assim no mundo todo. Quando se compreende a visão dos magos sobre os cruzamentos dos caminhos, fica até fácil de entender a importância da encruzilhada como lugar de PODER em todas as culturas tradicionais.

Os pontos cardeais: NORTE, SUL, LESTE E OESTE nos dão a dimensão do espaço. O espaço das possibilidades a seguir. Parado no cruzamento entre dois caminhos, o homem está como se estivesse no centro do mundo, diante de um universo de alternativas. Ele tem quatro caminhos, quatro destinos, e um deles é o seu.

Mas por que a estrada, a rua? Se para os magos qualquer ponto é o centro do mundo, então, mesmo no meio de um campo virgem ou no deserto, ainda existe a possibilidade de seguir qualquer direção…

Aí vem a explicação do mito sobre as encruzilhadas: porque as ruas, as estradas, os caminhos e as cidades são a expressão física, material dos desejos das pessoas. Imagine como nasceu um caminho: havia o campo, a natureza, e os homens passavam por ali, iam e voltavam, cada vez mais e em maior número. Em outras palavras, uma simples rua qualquer é a expressão das necessidades de todos nós, humanos. É preciso que a gente se desloque o tempo todo pelo mundo afora, sempre em busca de alguma coisa ou de alguém. A Vida é um caminho, e encarando por esse ponto de vista até faz mais sentido. Então os magos acreditam que as pessoas deixam sempre algum tipo de energia emocional nas ruas e essa energia circula pelos caminhos e fica ainda mais forte quando se cruzam…. Essa força inconsciente e inesgotável facilita o contato entre os mundos e por isso sempre foi usada, desde a Antigüidade.

Quais povos consideravam as encruzilhadas lugares mágicos?

Quase todos, principalmente os gregos. Eles colocavam em todas as encruzilhadas pilares de pedra com o rosto do deus Hermes. Senhor dos caminhos, da Medicina, do Comércio e da Inteligência, Hermes era tão importante que destruir uma destas Hermas era um crime gravíssimo. Foi apenas por destruir uma dessas HERMAS que o General Alcebíades, um dos maiores heróis da Grécia Antiga, foi misteriosamente assassinado. Simplesmente amanheceu apunhalado em uma encruzilhada, vestido de mulher.

Mas quem matou? E por que vestido de mulher?

Não se sabe. Mas Hermes era o deus da inteligência e da astúcia e seus devotos eram e são famosos pelo dom da ironia e pelo senso de humor. Não só a Hermes eram dedicados os cruzamentos dos caminhos.

Havia uma deusa noturna, sinistra, chamada Hécate, que presidia as artes da Magia e as forças das Trevas. A ela eram dedicadas as encruzilhadas que abriam-se em 3 braços. Quando uma feiticeira chegava a uma dessas, ajoelhava-se e uivava 3 vezes para a Lua, saudando os Poderes da Noite. Apesar dos devotos de Hermes terem assassinado Alcebíades, não seria errado dizer que Hermes representava a Magia Benéfica e Hécate a Magia Maléfica das encruzilhadas.

Aqui no Brasil é como na tradição africana: o Senhor dos caminhos é o Bará, é o senhor da Magia, tanto para o Bem quanto para o Mal.

No Brasil essa entidade se chama Bará, no Caribe se chama Legba e na África, de onde veio, se chama Elegbará. É uma divindade muito importante na religião Afro. É o senhor dos caminhos. Ele é mensageiro dos deuses, como Hermes. São sempre saudados antes de iniciar qualquer trabalho mágico. O deus Bará é chamado de o HOMEM DA RUA e as entidades que ele comanda são o POVO DA RUA, uma falange espiritual muito numerosa e poderosa.

Muita gente faz pedidos para o povo da rua nas encruzilhadas e pensam que são demônios…

Não exatamente, são criaturas não humanas, que não seguem nenhum padrão de moralidade como os nossos, por isso trabalham para qualquer objetivo sem perguntas, desde que sejam pagos, das formas mais variadas.

E uma coisa muito interessante: no sertão brasileiro e no interior do Sul dos Estados Unidos existe a mesma lenda. Quando alguém quer aprender a tocar um instrumento, principalmente violão ou harmônica, vai a uma encruzilhada numa sexta-feira à meia-noite, e faz um pacto com o Diabo. Por que será que dois povos tão distantes têm a mesma lenda?

Decerto por tudo isso que a gente falou. Tudo é uma questão de escolher o seu caminho.

Orixás, sacrifícios e proteção aos animais

O sacrifício de animais por parte dos cultos afro-brasileiros sempre foi motivo de discussão entre sacerdotes e entidades protetoras dos animais.

Pessoalmente, sou contra qualquer coisa que provoque sofrimento em um animal inocente, como o que fazem com os animais de rodeio, como as mutilações que fazem em animais de estimação, onde veterinários extirpam cordas vocais, mudam características físicas, só para que os seus donos sejam mais felizes com o seu “brinquedinho” de estimação. Sou contra, também, a utilização de animais como escravos, para qualquer tipo de trabalho, como os cavalos que puxam carroças e são, literalmente, espancados para que andem mais rápido e possam render alguns trocados aos seus donos.

É preciso, também, dizer aos amantes dos animais, que o sacrifício animal é somente uma pequena parte de um contexto muito maior que envolve o ebó (sacrifício ou oferenda). Algumas oferendas podem incluir, ainda, velas, frutas, doces ou qualquer coisa que possa ser apreciada pela divindade.

Durante o jogo de búzios o orixá pode pedir qualquer coisa, como sua fruta favorita, ou pode pedir que a pessoa atenda a um conselho, ou, ainda, que a pessoa abandone o álcool, ou outra ação que a prejudique. Pode pedir que use certas jóias, ou determinada roupa, ou que realize sua iniciação, ou que faça inúmeras outras coisas. Eles podem pedir, também, que se realize um sacrifício animal, para que o orixá possa ajudar a pessoa.

Normalmente, o sacrifício animal só é pedido quando a pessoa em questão está passando por um grande perigo, ou, então, quando o filho-de-santo é consagrado ao seu orixá, ou faz os assentamentos dos orixás que farão parte da sua obrigação.

Evidentemente, o sacrifício é visto com reserva por muitas pessoas e os cultos afro-brasileiros são vistos, por isso, como um culto primitivo.

Isso acontece porque a sociedade moderna sempre procurou nos separar do conceito da morte. Por isso, nossos próprios mortos são embalsamados para parecerem que estão vivos. Inúmeros artifícios são utilizados para desviar nossa atenção para o fenômeno da morte.

Quando compramos carne, ou até mesmo um sapato de couro, nos esquecemos que um animal teve que ser morto para que tívessemos a carne e o sapato para calçar.

Quando os animais são mortos nos frigoríficos e matadouros, a única coisa que importa é que eles sejam mortos em grande quantidade para atender a um mercado que exige, a cada dia, uma grande demanda de carne. Em vista disso, os animais são tratados com muito desrespeito. Esses animais também são sacrificados, entretanto, o orixá cultuado aqui é a cobiça. Se alguém já teve a oportunidade de visitar um aviário, ou um frigorífico sabe muito bem do que eu estou falando. Além disso, é importante lembrar que os aviários industriais de hoje matam mais galinhas em um dia do que a religião sacrificou em cem anos.

Quando um animal é sacrificado para um orixá, ele é tratado com respeito. Respeito para com o animal e respeito para com o orixá. Quando o animal é apresentado ao orixá, cantamos uma reza apropriada ao sacrifício, em reconhecimento ao orixá e também ao animal. Existe um grande respeito pela vida, e também pela morte.

Depois do sacrifício, se o animal não foi utilizado em um eru (cerimônia de troca de vida), ele é preparado e serve para a alimentação de todos os participantes.

O princípio básico no sacrifício é o oferecimento da força vital aos antepassados ou Orixás, e sempre buscamos a morte do animal de forma rápida, limpa e evitando, desta maneira, o sofrimento desnecessário do animal.

Existe, no entanto, um ponto a ser destacado, que são os atos de barbarismo que são praticados em rituais de sacrifício animais. Conheço casos em que os sacrifícios se parecem com verdadeiras sessões de martírio e tortura, ao se provocar, propositalmente, intenso sofrimento aos animais antes de matá-los.

A sangue frio sacerdotes arrancam pêlo e penas, arrancam os olhos, testículos ou quebram seus ossos, antes de sacrificá-los. Estes atos são criminosos e não um ato litúrgico sagrado, com um profundo sentido místico ou religioso.

São muitos os sacerdotes que praticam aquilo que se chama de “apresentação da carne”, que consiste em esquartejar os animais sacrificados enquanto entoam cantos dedicados aos orixás, como se estes ficassem felizes em ver este ato dantesco de sangue e de morte.

Este tipo de representação absurda e mórbida, de uma complexidade ritualística inventada por dementes, rompe com a pureza e com os princípios que regem o verdadeiro culto aos orixás e com os atos mais sagrados da nossa tradição religiosa, seja ela de Candomblé, Batuque, Umbanda ou Quimbanda.

Não existe nenhum sentido ético, e muito menos sagrado, em arrancar pedaços de carne de animais sacrificados para logo dançar e cantar ao redor deles, como faziam antigamente os bárbaros e outras etnias semi-selvagens, com as cabeças cortadas de seus inimigos.

A religião afro-brasileira tradicional trata com muito respeito o ato do sacrifício. Ele é executado com grande seriedade e respeito, porque a presença da morte imprime grande transcendência ao sacrifício. Os animais são sacrificados com rapidez e precisão para que, ao ser derramado seu sangue ele possa chegar com suavidade aos “fundamentos dos Orixás”. Depois disso, eles são limpos para que sua carne seja consumida pelos devotos e algumas vísceras são preparadas para serem oferecidas, também, aos Orixás.

Portanto, quando alguém conhecer algum caso de barbarismo nos sacrifícios, saiba que isto não é um culto afro-brasileiro de verdade, senão um maníaco que está cometendo um crime. Este é um caso de polícia, e como tal deve ser tratado: Por favor, denuncie-o na delegacia de polícia mais próxima, pois ele não passa de um criminoso, e nunca será considerado um sacerdote.

O polêmico Exu: Deus ou Demônio? - Parte II

Já vimos na primeira parte o que Exu representa na mitologia africana. Agora, nossa missão é entender o que aconteceu com esse personagem com a sua chegada ao Brasil e como evoluiu seu contado com a cultura judaico-cristã.

Os europeus, quando tiveram seu primeiro contato com o Exu dos iorubás, cultuado pelos fons como Legba ou Elegbara imediatamente o identificaram com o diabo judaico-cristão e com Príapo, o deus fálico greco-romano. Primeiro, pelas suas qualificações morais, narradas pela mitologia dos orixás, pois Exu contraria as regras de conduta tradicionalmente aceitas pela sociedade; segundo, pelas representações materiais e os símbolos fálicos ligados a Exu. Exu tem um caráter violento, suscetível, astucioso, grosseiro, vaidoso e indecente. Os primeiros missionários que tiveram contato com essa personalidade ficaram espantados e assimilaram-no ao Diabo, fazendo de Exu o símbolo de toda a maldade e perversidade, em oposição à bondade e à pureza de Deus.

Dessa maneira, todos os escritos dos missionários e pesquisadores que tomaram contato com a cultura fon ou iorubá, nos séculos 18 e 19 sempre descreveram Exu com olhos ocidentais e cristãos. Desde então Exu foi impingido com o binômio pecaminoso: sexo e pecado, luxúria e danação, fornicação e maldade, do qual nunca se libertou. Hoje, apesar de uma certa volta às origens, é o orixá mais incompreendido e caluniado do panteão.

Dentro da mitologia africana, os homens habitam a Terra (Ayê) e os deuses (orixás), o Orum (céu). No entanto, os orixás não são deuses distantes, mas sim muito presentes na vida diária, existindo um contato permanente entre deuses e adoradores. Os homens cuidam da alimentação, das bebidas, das roupas e do divertimento dos deuses. Eles são parte da família, fundadores dos clãs, cujas origens se perdem no passado. Em troca desse cuidado todo, os orixás protegem, ajudam, dão conselhos e identidade aos seus descendentes humanos. Mortos ilustres também merecem o devido culto para manter sua lembrança viva na comunidade, e um dia irão renascer como um novo membro da família. Essa é a razão do sacrifício: alimentar toda a família, inclusive os mais distantes ancestrais, os pais e mães que estão na origem de tudo, afirmando que os laços da família estão amarrados.

Exu, sendo o mensageiro, tem o encargo de fazer essa comunicação. Exu leva as oferendas aos orixás e trás comunicações deles aos humanos. Ele é o porta-voz dos orixás e entre os orixás. Como os orixás interferem em tudo o que acontece neste mundo, nada aconteceria sem o trabalho deste mensageiro. Nada se faz sem ele, nenhuma mudança. Sendo os sacrifícios uma reafirmação da lealdade, solidariedade e retribuição entre os habitantes do Ayê e do Orum, sempre que um orixá é interpelado, Exu deve ser propiciado, já que é ele que possibilita essa comunicação. Essa idéia fez com que se pensasse que Exu não trabalha sem pagamento, o que contradiz o ideal cristão do trabalho caridoso, sem interesse nenhum, o que é comum nos santos católicos. Exu ficou conhecido como um mercenário.

Sendo mensageiro dos orixás, Exu sabe de tudo. Não há segredos para ele. É conhecedor de todos os feitiços, receitas e magias. Trabalhando para todos, não faz distinção entre os que deve prestar serviço. Isso inclui todas as divindades, ancestrais e humanos. Mas o que mais o distingue das outras divindades é o seu caráter transformador, quebrador de regras. Ele tem o poder de questionar todas as convenções, romper as regras e promover mudanças. É por isso que é temido, pois ele é o princípio do movimento, da transformação, não respeitando nenhum limite. Assim, tudo o que contraria a ordem estabelecida é um atributo seu. Ao mesmo tempo em que é o responsável pela manutenção do status quo, é o responsável por todas as inovações que ferem as tradições. É uma divindade, portanto, nada confiável, de caráter duvidoso, interesseiro e turbulento.

Para um africano tradicional, o sexo tem uma função social, que envolve a garantia da perpetuação da espécie, do clã e das cidades. Para que isso se efetive, é preciso ter muitas esposas, que possam gerar muitos filhos. Exu é o “patrono” da relação sexual, que gera filhos e dá continuidade à humanidade. De acordo com os africanos, nenhum homem pode ser feliz sem uma prole numerosa e a atividade sexual é decisiva neste sentido. Isso é representado nos símbolos fálicos que acompanham Exu. Por isso, foi criada uma imagem de um “demônio lascivo, libidinoso e carnal”.

Tudo isso contribuiu para que os cristãos enxergassem em Exu uma entidade demoníaca, pois afrontava todos os tabus da cultura ocidental, onde sexo é pecado. Quando a religião dos africanos começou a ser praticada no Brasil, ela se inseriu num contexto dualista de bem e mal, o que lhe deu um novo formato e um novo papel para Exu.

Essa concepção dualista de bem e mal, do virtuoso e do pecador não existia na África. Lá, como em diversas religiões politeístas, cada orixá tinha suas normas próprias, aplicáveis aos seus devotos, como acontece ainda hoje no candomblé. Não existia um código de normas aplicável a toda a comunidade, indistintamente. O cristianismo tem esse código, onde existe um código de ética universalizado, operando com as noções de pecado, bem e mal. O bem é simbolizado por Deus, nas suas três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) e o mal é personificado no Diabo, em suas diversas manifestações. No sincretismo o lado do bem foi preenchido pelos orixás, onde Oxalá ganhou o status de Jesus Cristo, Olorum, o intangível deus africano, ganhou o status de Deus Todo Poderoso, e os demais orixás ganharam a identidade dos diversos santos do panteão católico. Nessa camisa de força, muitos orixás perderam diversos atributos, principalmente aqueles que se referiam à sexualidade, coisa considerada pecaminosa na teologia cristã. Inclusive as mães Oxum, Iemanjá e Iansã ficaram praticamente assexuadas neste sincretismo, e seus atributos femininos passaram a compor a Pomba-Gira, Exu feminilizado que ocupa o outro lado do mal, chefiada por Exu.

No sincretismo cristão-africano, quem melhor se enquadra para compor com Oxalá o conceito de deus-diabo, pecado-salvação, céu-inferno? Em troca desse favor aos jesuítas, ganhou de presente chifres, rabo, pés de bode, próprios dos demônios católicos da Idade Média. O ápice da carreira de Exu como o senhor do inferno aconteceu com o surgimento da umbanda em 1919. Mesmo conservando o panteão africano e o transe, a umbanda reproduziu sem fidelidade e de uma maneira muito kardecista, que já é fortemente influenciada pelo cristianismo, as concepções africanas de seus deuses. Começou, então, a praticar a caridade, uma concepção estranha ao candomblé. Substituindo a idéia do tabu pela idéia do pecado, a umbanda desejou ser moderna, ética, européia e branca, apesar das raízes negras, que sempre procurou apagar o máximo. A umbanda adotou o dualismo cristão de bem e mal, incorporando a versão católica do mal, mas não se dispôs a combatê-lo. Apesar de trabalhar para o “bem”, dissimuladamente criou um universo paralelo, negado, mas sem contar com os mecanismos sociais para o controle da moralidade que existiam na sociedade africana tradicional.

Esse território foi chamado de quimbanda, e passou a ser o domínio de Exu. Neste lado da umbanda, tudo aquilo que os pretos-velhos, caboclos e iaras se negam a fazer, por razões morais, Exu faz sem pestanejar. A quimbanda, apesar de ser a negação ética da umbanda, faz contraponto aos “santificados” orixás. Ela escondeu Exu, para poder operar livremente. A maldição imposta a Exu pelos missionários e viajantes cristãos na África foi, finalmente, completada, no Brasil, nos séculos 19 e 20.

Como a umbanda se destina a cultuar espíritos humanos, que um dia viveram na terra, são eles os responsáveis pelas celebrações. Assim como os caboclos foram um dia índios, de reconhecida bravura e bom-caráter, os pretos-velhos foram negros escravos dóceis, sábios e caridosos, Exu, na quimbanda, apesar do status de Diabo, era cultuado como homens de questionável conduta, como assaltantes, assassinos, ladrões, vagabundos, bêbados, e toda a espécie de gente ruim. Como a concepção católica acredita que a mulher é a fonte de todo o pecado, desde Eva, responsável por nossa saída do paraíso, Exu foi feito mulher, também. O lado sexual do pecado. Elas são mulheres perdidas, prostitutas, companheiras dos bandidos, cafetinas, etc. Pronto, foi terminada a criação do que hoje chama de Exu. Este personagem, quando incorporado, veste-se de capa vermelha e preta, bebe cachaça, fuma charutos, segura um tridente medieval do capeta, se torce todo, imitando os cascos de bode do Diabo, diz palavrão. Não se identifica mais o traquinas e brincalhão mensageiro dos orixás africanos. Tanto na África como no candomblé, Exu tem uma série de nomes, venerados através de diferentes invocações, de acordo com os seus locais geográficos ou atributos próprios. Identificamos diversos desse nomes, cultuados em diversas partes do Brasil: Iangui, Lodê, Elegbara, Bará, Agbô, Igbá Quetá, Ocotó, Obassim, Eleru, Lonã, Adague, Enugbarijó, Legba, Icorita Metá, Olobé, Elebó, Olodu, Elepô, Iná, Ajelu, Lalu, Tiriri, Aquessam, Alaketu, Eleiembó, Loroiê, Barabô, Marabô, Sinza Muzila, Emberequetê, Jelebara, Mavambo. São nomes que indicam as funções de Exu: mensageiro, transportador, transformador. Estes nomes, no entanto, estão ausentes na umbanda e nos candomblés em que Exu é associado ao Diabo. Neste caso se usa outros nomes, sempre associados a demônios da mitologia judaico-cristã: a entidade suprema da “esquerda” é o Diabo Maioral, ou Exu Sombra; Exu Marabô/Put Satanaika; Exu Mangueira/Agalieraps; Exu-Mor/Belzebu; Exu Rei das Sete Encruzilhadas/Astaroth; Exu Tranca Rua/Tarchimache; Exu Veludo/Sagathana; Exu Tiriri/Fleuruty; Exu dos Rios/Nesbiros e Exu Calunga/Syrach; Exu Ventania/Baechard; Exu Quebra Galho/Frismost; Exu das Sete Cruzes/Merifild; Exu Tronqueira/Clistheret, Exu das Sete Poeiras/Silcharde; Exu Gira Mundo/Segal; Exu das Matas/Hicpacth; Exu das Pedras/Humots; Exu dos Cemitérios/Frucissière; Exu Morcego/Guland; Exu das Sete Portas/Sugat; Exu da Pedra Negra/Claunech; Exu da Capa Preta/Musigin; Exu Marabá/Huictogaras; e Exu-Mulher, Exu Pombagira, simplesmente Pombagira ou diabo Klepoth. Há também os Exus que trabalham sob as ordens do orixá Omulu (Xapanã), o senhor dos cemitérios: Exu Caveira/Sergulath e Exu da Meia-Noite/Hael. Os nomes mais conhecidos são Exu Tata Caveira/Proculo; Exu Brasa/Haristum; Exu Mirim/Serguth; Exu Pemba/Brulefer; e Exu Pagão/Bucons. (Conforme Fontennelle, s/d; Bittencourt, 1989; Omolubá, 1990).

Entre os nomes de Pomba-gira temos: Pomba-gira Rainha, Maria Padilha, Pomba-gira Sete Saias, Maria Molambo, Pomba-gira da Calunga, Pomba-gira Cigana, Pomba-gira do Cruzeiro, Pomba-gira Cigana dos Sete Cruzeiros, Pomba-gira das Almas, Pomba-gira Maria Quitéria, Pomba-gira Dama da Noite, Pomba-gira Menina, Pomba-gira Mirongueira, Pomba-gira Menina da Praia. É notória em casos de amor, e tem poder de ajudar qualquer tipo de união amorosa e sexual.

A expansão da umbanda por todo o país, verificada a partir do início do século 20, tornou maior o contato (ou contágio?) entre essas doutrinas religiosas. O candomblé de orixás, que já havia inserido em seu contexto o culto aos caboclos, não tardou em inserir Exus e Pomba-giras. Atualmente, terreiros de candomblé sem exus e pomba-giras pode-se contar nos dedos.

Neste tipo de piada religiosa que se tornou o degrau mais baixo da decadência de Exu desde que foi sincretizado com o Diabo, o culto aos orixás é pouco significativo, onde se faz uma ou outra festa para os orixás durante o ano, e o resto do tempo são feitas festas para fazer imitações degradadas do orixá mensageiro. A transformação de Exu em guia da quimbanda o aproximou bastante dos mortais, mas o fez perder o status de divindade. Ele fez o caminho inverso do que usualmente ocorre em religiões de antepassados, em que os homens são divinizados depois da morte.

Naturalmente, em certos terreiros de candomblé que observam as raízes africanas, Exu está bem próximo de sua verdadeira função. O mesmo não acontece quando olhamos para a imagem de Exu cultivada em religiões oponentes. As religiões evangélicas, principalmente, que usam o rádio e a televisão para divulgar seus ensinamentos, o tratam como o próprio Diabo em pessoa. Essas religiões exploram com muita facilidade essa imagem, atribuindo a Exu e aos cultos afro-brasileiros todos os males que afligem os humanos. Todos os males, inclusive o desemprego, a miséria, a crise familiar, entre outras aflições que atingem os cotidianos das pessoas, sobretudo os pobres, são considerados pelos neopentecostais como tendo origem no diabo, identificado preferencialmente com as entidades afro-brasileiras. O desemprego, por exemplo, ao invés de ser considerado como decorrente das injustiças sociais e problemas da estrutura da sociedade, como explicariam os católicos das comunidades eclesiais de base, é visto pela Igreja Universal como resultante da possessão de alguma entidade como Exu Tranca Rua ou Exu Sete Encruzilhadas.

Entre os católicos, a antiga inimizade com as religiões afro-brasileiras, reavivou-se com a Renovação Carismática. Este movimento, que divide com o pentecostalismo muitas características, inclusive a intransigência para com outras religiões, o catolicismo carismático voltou a bater na tecla de que as divindades e entidades afro-brasileiras não passam de manifestações do diabo, que se apresenta a todos, sem disfarce, nas figuras de exus e pomba-giras. Está de volta a velha perseguição católica aos cultos afro-brasileiros, agora sem contar com o braço armado do estado, cuja polícia, pelo menos até o início da década de 1940, prendia praticantes e fechava terreiros, mas podendo se valer de meios de propaganda igualmente eficazes. Exu, o Diabo, mobiliza e legitima, aos olhos cristãos, o ódio religioso contra a umbanda e o candomblé, corporificado em verdadeira guerra religiosa de evangélicos contra afro-brasileiros.

A mídia colabora muito para esse resultado, não sendo raro os casos em que associam casos de magia negra e assassinatos com feiticeiros que se dizem sacerdotes das religiões afro-brasileiras. Já no interior do africanismo, temos um movimento de volta às raízes, numa espécie de retorno ao verdadeiro papel dos orixás e de Exu. Nos terreiros que estão fazendo este retorno, Exu é tratado como um orixá igual aos demais, buscando acabar com esse sincretismo. Como no candomblé cada membro do culto deve ser iniciado para um orixá específico, que é aquele considerado o seu antepassado mítico, sua origem de natureza divina. Os que eram identificados pelo jogo de búzios como filhos de Exu estavam sujeitos a ser reconhecidos como filhos do diabo e, por isso, acabavam sendo iniciados para outro orixá, especialmente para Ogum Xoroquê, uma qualidade de Ogum com profundas ligações com o mensageiro. Até pouco tempo, eram raros e notórios os filhos de Exu iniciados para Exu. Estranhamente, o “batuque”, culto africano praticado no sul do país, esse sincretismo não existiu, sendo que Bará (Exu) sempre foi considerado um orixá igual aos demais, com pouquíssima identificação com o diabo, exceto em terreiros que praticavam umbanda e “batuque”. Sempre observei uma grande pureza nas práticas da “nação dos orixás”. Atualmente, tudo isso está mudando à medida que o movimento de desvinculação dos orixás com o conceito maniqueísta cristão e já encontramos filhos de Exu orgulhosos de sua origem. Exu está perdendo a condição de diabo que lhe foi colocada pelos cristãos. Assim, ele está tendo chance de voltar a ser o orixá mensageiro, que tem o poder da transformação e do movimento, estradeiro, freqüentador das encruzilhadas e guardiões das portas das casas. Orixá brincalhão, controvertido, questionador, nem santo, nem demônio.

Exu – Orixá ou Demônio?

Exu (também conhecido como Eleguá, Elegba, Bará) é o dono de todas as estradas.

Alguns se mantêm nos cantos das ruas, alguns vivem nos bosques, alguns se mantém nas margens dos rios ou nas praias, alguns vivem em depósitos de lixo, alguns vivem nas portas dos cemitérios. Além de ser o mais importante dos Orixás, possui uma personalidade muito próxima da humana. É como Mercúrio, o mensageiro dos deuses na mitologia grega.

Considerando que ele se mantém nos caminhos, ele sabe por onde anda todo o mundo, contando tudo o que sabe para Orunmilá sobre a vida de uma pessoa antes que essa consulte o Oráculo de Ifá (jogo de búzios).

É o primeiro Orixá a receber adoração em todas as tradições de origem africana. Você deve ter Exu antes de ter qualquer outro Orixá, você deve fazer oferendas a Exu antes de fazer oferendas a qualquer outro Orixá.

A razão para isso é explicada na seguinte história:

O Criador, ou Olodumaré, ficou doente. Nenhum dos Orixás poderiam curá-lo. Finalmente, Olodumaré chamou Exu, que deixou a sua casa, nos bosques, onde juntou várias ervas medicinais e foi até Olodumaré, com sua bolsa de ervas nas costas. Exu pediu que todos os outros o deixassem a sós com Olodumaré e usou todo o seu conhecimento das ervas medicinais para curar o criador. Mostrando gratidão, Olodumaré determinou que daquele dia em diante, Exu seria o primeiro a comer, antes de qualquer outro Orixá. Isto deixou Exu muito feliz, pois mesmo morando no bosque, às vezes não tinha o bastante para comer. Assim foi como um dos mais novos Orixás tornou-se o mais importante e o mais poderoso.

Exu, para qualquer um que esteja familiarizado com qualquer religião, cumpre o papel de mensageiro divino. Em todas as tradições existem forças na natureza, ou presença espiritual, que permite que o homem se comunique com a natureza e permite à natureza se comunicar com os humanos. O mensageiro divino traduz o idioma da natureza para o idioma humano e traduz o idioma humano para a natureza.

Além de ser o Mensageiro Divino, Exu tem várias outras funções. É o que abre todas as portas. Cumprindo o papel de Exu como “malandro” divino, a maioria da literatura antropológica o identifica como uma forma de molestamento. Em quse toda a literatura, Exu é descrito como um fenômeno diabólico ou como o próprio diabo. Mas há uma função muito sagrada para os “malandros” em todas as culturas tradicionais. Esta função é trazer a cada um de nós a verdade de que somos interconectados e inter-relacionados. É a verdade eterna de que ninguém pode ser autoconfiante. O papel do malandro é deixar que aqueles que acreditam que todos os seus erros serão encobertos, que eles são fortes e nunca sofrerão, saibam que esta autopercepção pode não ser verdade. A meta de Exu, por trás dos seus truques, é criar a consciência da inter-relação de todos os seres humanos.

Essa inter-relação não está limitada às pessoas. Nós somos dependentes de outras pessoas para sobreviver no mundo e nós somos dependentes da comunicação com a natureza para viver em paz com o mundo. O “malandro” divino nos joga isso na nossa cara quando colocamos lixo nos rios, quando destruímos, de alguma forma, a harmonia da natureza. Sempre que cometemos algo assim, podemos esperar uma resposta de Exu.

Exu não é, no entanto, uma força arbitrária, malévola, que poderá lhe castigar quando você não se comporta bem. Este é o modelo cristão. O malandro divino é um princípio fundamental da estrutura da realidade, baseado na idéia de que se há um ovo chocando e alguma coisa com asas sai de dentro dele, há uma grande chance de que seja um pássaro. O universo não é arbitrário.

É um grande “adivinhador” que não precisa de um oráculo para ver o futuro. Ele possui as chaves para todas as portas, tanto para o mal como para o bem. Parece ter prazer assumindo compromissos, criando situações de aborrecimento entre os humanos. Mas suas ações, entretanto, são sempre justificadas, porque só ele sabe o verdadeiro significado da justiça e vê coisas que estão escondidas da humanidade, como também dos outros Orixás. Ele pode ser igualmente cruel e generoso, traiçoeiro, perigoso e caprichoso. Exu é o orixá mais alto, e também o mais baixo. O príncipe e um pobre que se sente igualmente à vontade em um palácio ou num depósito de lixo. Como Oyá (Yansã), ele rege os quatro ventos. É um grande curandeiro e um mestre na arte da magia. Seus feitiços e amuletos são muito poderosos e impossíveis de se destruir.

No Brasil, Exu é associado com o Diabo. Vive sempre fora da casa, para protegê-la e porque sua energia é muito forte para tê-lo dentro de casa. Por outro lado, trabalha diretamente com Olodumaré, para servir aos humanos e aos outros Orixás. Todos preferem manter boas relações com ele, inclusive os Orixás, para que todos os planos possam ter sucesso.

Identificando Exu em outras tradições ou mitologias

São Miguel, em algumas culturas, é uma das representações católicas para Exu. Em outras, ele é sincretizado com Santo Antônio (o casamenteiro). A razão do sincretismo com Santo Antônio não é bem explicada. Talvez esteja relacionada com as funções de Santo Antônio no folclore. Ele é freqüentemente chamado para encontrar objetos perdidos. Considerando que Exu é o Orixá que abre as portas de diversas maneiras, faz sentido pedir-lhe que recupere objetos perdidos. Igualmente, Exu é chamado para recuperar dinheiro, ou encontrar um companheiro, ou até mesmo para recuperar a saúde.

[i]”Papa Legba, ouvrez barriere pou moin passe”[/i].
Papa Legba, remova as barreiras do meu caminho.

Assim começam as orações para Legba na tradição haitiana. Exu é conhecido aqui como Legba. Legba é o primeiro Loa ou Orixá a ser invocado em qualquer cerimônia. Legba é visto na tradição haitiana como um homem velho que leva um saco nas costas e fuma um cachimbo. Ele também tem outros “caminhos” ou estradas na tradição haitiana como o Senhor das Encruzilhadas (Maitre Carrefour). Legba está em todos lugares, vê e ouve tudo. Ele sabe o que acontece com todo o mundo.

Hanuman é um semideus macaco dos hindus. Tenho certeza de que você está perguntando: “O que tem isto a ver com Exu?” Bem, antes que você proteste mais, me deixe mostrar as semelhanças. Freqüentemente, Exu é identificado com a esperteza do macaco. Exu está em algumas lendas como o filho de Oyá (Yansã) que supostamente o abandonou porque ela não tinha tempo para se envolver com a criação de uma criança, devido ao seu romance com Xangô e suas batalhas. Hanuman é o filho de Vaaya, o deus do vento. Ele não é a deusa do vento, mas, todavia, é o deus do vento que corresponde à mesma energia de Oyá. Hanuman serviu Rama, uma encarnação de Vishnu, lealmente, da mesma maneira que Exu serviu Olodumaré devotadamente. Hanuman era corajoso e grande guerreiro. Assim também nós consideramos Exu. Hanuman também vive nos bosques e assim também vive Exu, em muitas das suas encarnações.

Hermes é o Mensageiro dos deuses do Olímpio. Ele é o deus grego equivalente a Exu. Hermes também é um deus “malandro” e os ladrões buscavam a sua ajuda.. Ele trocou a sua lira com Apolo para fazer adivinhações para os plebeus. Ele carregava um caduceu, ou, uma baqueta mágica que ainda hoje existe em ambulâncias e outros logotipos médicos. Nosso Exu também é o mensageiro dos Orixás. Sem a sua ajuda, toda a comunicação entre os Orixás e entre os Orixás e a humanidade não ocorreria suavemente.

Não podemos esquecer de que Anúbis, é o deus egípcio que guia os mortos na sua caminhada para o outro mundo. Isto também se ajusta a Exu, pois existem certas encarnações de Exu que estão associadas com os espíritos dos mortos. Hermes evoluiu, obviamente, de Anúbis, mas como ele adquiriu as outras características de Exu que não existiam em Anúbis? É um mistério que não podemos explicar, mas podemos dizer que o Arquétipo Universal se manifesta em cada cultura ou sociedade.

Baphomet era o suposto deus da Ordem dos Cavaleiros Templários que depois foi incorporado em alguns ritos maçônicos. Atualmente, Baphomet se tornou um símbolo para os Satanistas, que inverteram o pentagrama original. Essa figura poderia representar Exu. Em primeiro lugar, é macho e fêmea, como Exu. Igualmente, tem os chifres do poder. Chifres sempre foram símbolos de poder e magia. No meio de tudo, está o caduceu de Mercúrio, outro símbolo de poder e domínio. As bruxas chamam esse símbolo de O Bode de Sabat. Este é um vínculo ao deus-bode, que era filho de Hermes, outra evolução na história de Exu. Isto é só uma teoria, e não espero que todos concordem com isso.

Loki é o deus “malandro” do povo escandinavo. Ele era visto como um homem velho. Isto corresponde um pouco ao conceito haitiano de Exu. Originalmente ele não era parte do Aesir, ou o grupo de deuses governantes na mitologia escandinava. Só depois que Odin fez um pacto com ele, como irmão de sangue, ele se torna parte do panteão. Este também é o caso de Exu. Exu era considerado pelos yorubanos como um ser primordial que existia antes mesmo da criação do mundo. Por outro lado, sob a influência de Olodumaré, era capaz de ajudar a humanidade. Talvez o atributo mais apropriado de Loki que corresponde a Exu é a malícia. Afinal de contas, o que é um malandro sem malícia e astúcia?

Às vezes, as pessoas tentam limitar a função de Exu, mas isso é um engano. Exu é uma benção, não só para ajudá-lo a evoluir espiritual e materialmente, mas ele dá uma certa proteção a você e a sua casa. Você não está só para lutar nas batalhas que a vida lhe oferece.

Algumas pessoas enxergam Exu como o gênio da lâmpada, esperando ter todo o desejo cumprido por ele, como se ele fosse um escravo para lhes ajudar a ganhar na loteria ou ficar rico da noite para dia. Normalmente essas pessoas ficam desapontadas, pois não é esse o caso. Às vezes o que queremos, na verdade não nos interessa e não temos a visão para enxergar isso, num dado momento, em particular. Os Orixás possuem esta visão. Freqüentemente ouço alguns comentários: “Meu Exu não trabalha para mim”. Aos que receberam um Exu, saibam que ele está sempre lá, protegendo você, desde que não seja ofendido ou desrespeitado. As pessoas que fazem tais comentários, devem saber que Exu os ouve, e, neste caso, ele não trabalhará para elas depois disso. A adoração aos Orixás requer fé e paciência, como, também, respeito. Nunca esqueça isto!

Exu é a energia absoluta da oportunidade!

Esta é a realidade que nossos antepassados negros compreenderam claramente, e foi expressa então em vários lendas e histórias. Por exemplo, você já sabe que Exu está no controle das estradas e caminhos. Realmente, nossas orações para Exu incluem freqüentemente “por favor, abra todas as portas e meus caminhos…

Contudo, o que representam estradas? Elas representam as oportunidades para novas direções e destinos! A lenda foi, simplesmente, uma forma de mostrar isto.

Por que Exu é o primeiro a receber as oferendas?

Há mil lendas e histórias que contam como esta energia se tornou a mensageira entre os Orixás e Olodumaré, contudo a mensagem que estava sendo dada era “sem criar a oportunidade da qual Exu é a essência, nada pode ir adiante”!

Por que Exu é visto como um eterno adolescente?

A transição entre infância e a idade adulta pode ser a última oportunidade. Certamente, este período de nossas vidas representa o último crescimento físico e emocional durante esta experiência de vida.

Por que Exu é visto como um castigo?

Uma vez mais, as lendas perceberam corretamente a energia. Realmente, uma corrupção aconteceu quando os missionários cristãos confundiram esta energia inerente e decidiram que Exu era o conceito do Diabo. Bem, quem é castigado nas lendas de Exu? Os castigos se relacionam com oportunidades perdidas. A pessoa que perde uma oportunidade ou a torna indisponível, tem seu castigo na própria perda que provocou. Mas, isto não é um julgamento moral de um jovem adolescente caprichoso, é o resultado lógico de um universo racionalmente construído, um universo criado por Olodumaré para incluir todas as energias, um universo onde nós fomos determinados a ter acesso aos benefícios destas energias, mas só se usarmos estas energias como parte de nossa relação simbiôntica com o mundo em que vivemos. Isso é onde as conseqüências e a essência da energia de Exu entra em jogo. Quando nós começamos a usar estas energias para nossa própria satisfação em curto prazo, sem consideração para o físico e para o emocional e para o bem do planeta e da comunidade que nós vivemos, então as oportunidades produtivas não mais estarão disponíveis para nós.

Quando uma pessoa recebe o seu Exu pessoal, ela está recebendo uma conexão direta com esta matriz de oportunidades. Porque cada um de nós tem sua própria energia e caminho específico, e nossas oportunidades individuais serão enfocadas para expressar este destino pela construção e alimentação do nosso Exu pessoal. Através do nosso Exu, não algum símbolo genérico, como uma cruz ou talismã, nós poderemos aprender a nos conectar às oportunidades que se abrirão para que possamos percorrer nosso caminho. Nos conectamos à totalidade da energia matriz de Exu, não a uma parte dela. A prática de relacionar um dos diversos caminhos de Exu como um caminho individual para nossa conexão pessoal com a sua energia é incorreto e limitado. Quando você recebe seu Exu, recebe o potencial para TODAS as OPORTUNIDADES!

Quando a pessoa entende que este Exu representa a matriz de todas as oportunidades, pode se conectar com mais facilidade a esta energia.

Ogum – O Orixá Guerreiro

A energia de Ogum é tão simples que fica difícil para nós defini-la. Ela deve ser vista como uma combinação de energia física e de integridade. A descrição de Ogum como aquele que desbrava os caminhos para que a civilização possa crescer é uma maneira simples de expressar esta energia física. Essa energia é sempre expressa com uma necessidade incontida de ação física. Nosso deus guerreiro, simplesmente, tem sempre de estar fazendo algo físico. É uma energia que não tem fim e não consegue parar.

A sexualidade exaltada de Ogum é outra expressão deste sentido extremamente físico, onde Ogum consegue combinar sua praticidade com um momento de paz e relaxamento.

As muitas histórias que descrevem Ogum como um deus que prefere estar só é um resultado lógico desta energia incrível que se basta a si mesmo. Aliando isso a uma completa falta de habilidades sociais, pois sempre prefere a ação à capacidade de diplomacia. Naturalmente, justiça e integridade são ingredientes essenciais para Ogum. É claro, essa energia não pode parar nunca, e sempre que uma pessoa mente, quebra sua palavra, se comporta de forma imoral está colocando obstáculos num caminho em que se é obrigado a caminhar. Esse tipo de atitude interfere na clareza da expressão física de Ogum. Dessa forma, Ogum não tolera nenhum comportamento desonesto. Ogum pertence tanto ao lado positivo quanto negativo dos orixás. Isso se deve à sua resposta muito rápida e fulminante, com um julgamento veloz e com resultados, às vezes, indesejados.

Um pouco de lenda

No Brasil, Ogum é identificado como São Jorge por sua imagem do guerreiro de armadura e lança, subjugando um dragão. Como vemos um santo católico, utilizando muito metal e superando seu inimigo, isso reforça a identificação do orixá com São Jorge.

Devemos deixar claro, no entanto, que o santo católico não é o orixá, ou vice-versa. Isso foi somente uma conveniência que os primeiros adoradores da América desenvolveram para esconder suas verdadeiras convicções para impedir que fossem perseguidos pelos jesuítas. Dessa forma, foi inventado um sistema que permitiu a adoração dos orixás no Novo Mundo. Apesar disso, não sou como muitos dos puristas, que exigem a exclusão de qualquer imagem católica que seja identificada com os orixás, como se isso contaminasse o nosso culto. Isto, na verdade, desrespeita a sabedoria dos antepassados que durante 500 anos preservaram a adoração dos orixás na América. Claro, nenhuma imagem católica é necessária para a adoração correta aos orixás, mas, se alguém quer ter uma imagem de São Jorge ou Santa Bárbara na sua casa, não devemos criticá-los ou ofendê-los por isso.

Ogum é a contraparte africana de Vulcano, Hephaístus para os gregos. É o deus-ferreiro romano. Ele é o orixá do ferro e do aço. Considerando que a forja começou na Idade do Ferro, acredito que o nosso Ogum precede Vulcano e Haphaístos, porque estas culturas se desenvolveram bem depois da Idade do Bronze. Mas, é mais um exemplo de como as energias universais se manifestam em diferentes culturas. Na cultura grega, Afrodite era a legítima esposa de Hephaístos, que tinha um caso amoroso com Ares, o deus da guerra, que nos remete ao triângulo amoroso de Ogum, Oyá e Xangô. A mesma história básica com leves alterações. Este mito grego poderia muito bem ter se originado na história de Xangô, que rouba a esposa de Ogum. Afinal, Xangô era um grande guerreiro. Mas é pura especulação minha, sem nenhuma prova científica.

Ogum é associado com São Pedro na tradição Lucumi. Não sou muito favorável a essa associação, mas, respeito à tradição dos nossos antepassados. Porém, como já declarei, não é necessário ter uma imagem católica para cultuar os orixás, pois elas não fazem parte de qualquer “fundamento” dos orixás. Considerando que Santeria, Lucumi, Vodu e Candomblé sempre existiram lado a lado com a igreja católica, não vejo nenhum mal em identificar os orixás com santos católicos. Ajudou muito em séculos passados e evitou muita perseguição.

Na cultura iorubá, Ogum é força bruta, o poder para derrotar os inimigos. É o deus do sacrifício e o dono do aço e da lâmina que são utilizados para fazer os sacrifícios aos orixás. Por isso, Ogum sempre é o primeiro orixá a comer, pois o sangue de qualquer sacrifício sempre toca a faca sacrificatória antes de cair no orixá a quem o sacrifício é destinado. Ogum faz guerra contra nossos inimigos. Seria muito agradável se não houvesse nenhuma guerra no mundo, e nenhum inimigo, mas, devido à nossa natureza, sempre haverá discussão e diferenças. Mesmo que as lutas não sejam feitas num nível físico, guerras espirituais ou psíquicas sempre existirão. E, claro, há sempre a guerra entre o bem e o mal. Ogum é a defesa contra nossos inimigos, materiais ou espirituais. No entanto, eu sempre repito, DEFESA, pois não devemos utilizar os orixás para atacar agressivamente nossos adversários. Mas Ogum nos defende das perseguições injustas e faz a justiça necessária. Ogum tem uma grande afinidade com os cachorros, da mesma maneira que Odé (Oxossi).

Na sociedade moderna, podemos identificar o espírito de Ogum nas mais diferentes profissões, principalmente àquelas que sempre estão descobrindo coisas novas, como os cientistas, os geradores de tecnologia, aqueles que sempre estão possibilitando um grande desenvolvimento da humanidade. Assim como as estradas de ferro trouxeram o progresso, hoje a informática é o maior meio de progresso humana e a principal geradora de desenvolvimento. Ogum sempre foi o desbravador, aquele que dominou as novas tecnologias de fundição do aço, propiciando um grande avanço da sua civilização.

No Haiti, Ogum é chamado de Ogou. Da mesma forma que há muitos caminhos de Ogum, existe o Ogou Fer, Ogou Bhatala, Ogou Feraille, Ogou Xangô, Ogou Balendyo, etc. É um Loa extremamente importante. É encontrado no Rada e nos ritos de Petro. Os Loas Rada são brancos ou frescos, que correspondem a Obatalá, Oxum, etc. Os Loas Petro têm mais calor e são associados com a cor vermelha e possuem influência do Congo e dos ritos Bantos. No Haiti existem muitos filhos de Ogou, isso se deve ao fato que Ogou foi muito propiciado nos tempos que os escravos do Haiti derrotaram o exército de Napoleão. No Brasil, por exemplo, existem muitos filhos de Odé (Oxossi), devido à influência de grandes florestas tropicais, onde Odé, certamente, se sente em casa.

Ogum também é associado às estradas de ferro na América. Isso se deve ao fato de que os trens eram feitos de ferro e aço. A estrada de ferro é de aço. Freqüentemente são oferecidos “ebós” a Ogum nas estradas de ferro. Muitos assentamentos de Ogum possuem um pedaço de trilho de trem junto com suas ferramentas. Este é um exemplo da evolução na adoração ao orixá. Nas épocas distantes, quando os antepassados cultuavam Ogum na África, não existiam estradas de ferro. Com a invenção das locomotivas e suas estradas e levando em conta que Ogum é o deus do ferro e do aço, foi feita essa associação. Embora estes antepassados sejam criticados, eu os admiro. Eles tiveram que suportar a escravidão e a dor para não deixar que sua adoração, no Novo Mundo, tivesse fim. Pelos seus esforços, esta adoração foi ampliada e aberta a tudo, mesmo à cor da pela e à diferença cultural.

Quando Ogum não estava forjando suas ferramentas ou fundindo metal ou em suas guerras, passava muito tempo na floresta. Por isso, ele tem uma grande identificação com Exu e Odé e com as florestas, tirando poder dos elementos e dos espíritos que vivem lá. Estes orixás são muito conectados à floresta e suas cerimônias têm de estar relacionadas a esta conexão. A influência de Ogum não pode ser menosprezada, pois ele é chamado de “a mão esquerda de Olofim”, enquanto Xangô é chamado de “a mão direita de Olofim”. Na cultura hindu, Shiva é a terceira personagem da trindade dos deuses principais. É o aspecto destruidor e como tal tem conexões com Ogum. Este aspecto particular é chamado de Mayadevi e é considerado a fonte de poder. Este aspecto de Shiva, com suas serpentes me faz lembrar de Ogum Avagã, que é conectado com as serpentes. Shiva, em suas representações, sempre aparece muito calmo, em estado de meditação, nos mostrando que o poder não deve ser mostrado para si mesmo com agressividade. Os que têm poder não têm de provar aos outros que possuem este poder, da mesma forma que os que possuem conhecimento não precisam ficar expondo continuamente aos outros o que eles sabem. Se eu fosse comparar os orixás com a trindade hindu, teria Orunmilá como Vishnu, Oxalá como Brahma e Ogum como Shiva. Isto colocaria Ogum numa posição elevada na nossa maneira de ver os orixás. A cosmologia dos Orixás é diferente e os dois sistemas não podem ser comparados igualmente. Porém, sabemos que aqueles que possuem um grande espírito guerreiro, reconhecerão imediatamente o orixá Ogum. É o melhor aliado que podemos ter, em qualquer situação.

Ogum Iê, patakori!

Yansã - A Deusa Guerreira

Yansã pode ser simplesmente descrita como a “essência da Mudança Brusca”. Sempre que examinamos as lendas construídas para explicar essa energia, podemos ver essa essência de forma bastante clara. No entanto, se olharmos as lendas de uma forma literal, nos perdemos numa grande confusão antropomórfica. Os seres humanos sempre tentaram explicar a energia divina com exemplos tirados da sua vida diária. Apesar de facilitar o seu entendimento, essa tentativa de entender essas energias em condições humanas, banaliza a energia. Dessa maneira, diminuímos o seu poder, e nossa habilidade para utilizá-la com eficiência.
Assim, quando nós afirmamos que Oyá é a “dona” da feira (uma visão Yorubá), estamos tentando mostrar o mercado (negócio), com suas mudanças bruscas, onde diversas pessoas ficam ricas, ou pobres, da noite para o dia e toda a movimentação que ocorre nestes meios. Este é apenas um exemplo da energia deste Orixá. Quando a descrevemos como um vendaval ou tornado, estamos dando outro exemplo das inúmeras mudanças que esta energia pode provocar. O vendaval, ou tornado, acontece repentinamente e remove seletivamente as coisas do seu caminho. É esta mudança brusca que as lendas pretendem mostrar. Mas nada deve ser lido de forma literal. É apenas o enfoque da energia. Da mesma maneira, quando vemos Yansã como uma figura solitária, é para mostrar a impermanência desta energia. Nenhuma pessoa pode sustentar nenhuma relação quando está em processo de mudança e se este processo é a razão da sua existência. Os filhos de Yansã precisam trabalhar muito bem suas relações e o problema da solidão que tantos possuem é a expressão lógica da eterna mutação sem o equilíbrio humano necessário.

Também, quando descrevemos Oyá como a “porteira” do cemitério, estamos, simplesmente, mostrando outras formas de mudança brusca que são manifestadas pela energia deste Orixá. Afinal, que mudança pode ser mais brusca que a morte?

E, finalmente, quando descrevemos Oyá como uma guerreira, que luta ao lado de Orixás guerreiros masculinos, estamos apenas repetindo a visão chauvinista de muitos babalorixás e sacerdotes, que pensam que se ela é tão forte, deve ter algo de masculino.

Tudo está enfocado na energia do Orixá. Trabalhar com a energia da mudança de Yansã pode trazer significado, amor, profundidade, sabedoria e realização para sua vida.

Olhando um quadro de Santa Tereza, procuro saber por que os antepassados de Cuba escolheram uma imagem tão doce e inocente de um santo católico para representar um Orixá de tempestades e tornados. No Brasil, ela é representada como Santa Bárbara. Mesmo associada a uma santa católica, continuou sendo o orixá dos ventos e do raio. Representa uma das forças mais poderosas da natureza. Afinal, quem pode resistir a um tornado? Ou a um raio? Ninguém. Ela representa o controle destes elementos. Ela retira sua força espiritual destes elementos e é uma guerreira poderosa que luta ao lado de seu principal amante, Xangô.

No Haiti, ela é conhecida como a Grande Brigitte, esposa do Barão de Samedi, o dono do cemitério. Como ela vive no cemitério, também é associada com os mortos, o que, em parte contribui para que muitos temam seu poder. Mas, na verdade, ela é muito poderosa. Suas cerimônias são complicadas e delicadas. Devem ser executados corretamente, sem omissão de qualquer detalhe. Devido a este fato, o assentamento deste orixá é muito caro e demorado. É um orixá muito misterioso, mas também de muita beleza e muito leal. Da mesma forma, ela espera a mesma lealdade dos seus devotos.

Oyá e Yansã são dois nomes para o mesmo Orixá. Oyá é mais comum em Cuba, enquanto Yansã prevalece no Brasil. Embora seja forte e uma guerreira brilhante, nunca perde a feminilidade e a elegância. Ela gosta do calor da batalha. É o raio iluminado e Xangô é o trovão que o segue. Ela se movimenta tão rapidamente quanto o raio.

Eu tenho falado em outros artigos sobre as correspondências entre os orixás e as outras personagens de outras mitologias, como a Grega, Hindu, Egípcia, etc. Não existe nenhuma evidência histórica para isso, mas, eu, acredito nesta conexão.

Por exemplo, acredita-se que os primeiros humanos da África tenham viajado, de alguma maneira, para a Austrália, como foi comprovado pela cor da pele. Quem pode dizer que eles não chegaram também até a Índia e se misturaram com as raças nativas? Comparativamente, os semideuses hindus podem, facilmente, serem associados aos orixás e as suas funções são as mesmas. Oyá corresponde a Kali, enquanto Laksmi corresponde a Oxum, Brahma a Oxalá, Vishnu a Olodumaré. Claro, isso é apenas uma especulação da minha parte e não faço nenhuma reivindicação de possuir alguma prova científica. Mas, provas espirituais nem sempre são científica. A cor negra de Kali e o fato de que ela é uma deusa guerreira, com um colar de crânios me leva a identificá-la como Oyá. O que você pensa? Agradeceria seus comentários!

Na Nigéria, Yansã é muito conectada aos mortos. A reverência aos ancestrais é muito importante na adoração dos Orixás. Por isso, é necessário ter uma boa situação com os antepassados antes de ser iniciado na adoração dos orixás. Uma das maneiras de fazer isso é ter um altar para seus antepassados. Não precisa ser muito elaborado, mas dentro dos meios que você dispõe. Na tradição africana, colocamos bebidas, bebidas alcoólicas e comidas para eles. São, também, sacrificados animais, o que lhes dá energia e acesas velas, que lhes dão luz, de forma que eles possam progredir nos reinos espirituais. Alguns adeptos dos Orixás poderiam se ofender com o uso da palavra “bruxo” para descrever um Orixá. No entanto, alguns orixás poderiam muito bem ser descritos desta maneira. No idioma português, a palavra “bruxo” tem uma conotação ruim. Para nós significa uma pessoa ou entidade com poderes mágicos. Realmente, os poderes dos Orixás poderiam ser chamados de mágicos, por causa dos efeitos maravilhosos que podem realizar. Da mesma forma, alguns orixás, mais que outros, se prestam a fazer “bruxaria” e eles gostam de fazer trabalhos de magia para seus “filhos” ou a quem pede a ajuda de seus “filhos”. Oxossi (Odé) é outro orixá considerado bruxo, pois está conectado a todos os espíritos da floresta, da mesma maneira que Yansã está conectada aos espíritos que vivem no cemitério. Estes dois orixás têm o poder para trazer a ajuda de espíritos que os ajudam no seu trabalho, solucionando problemas corretamente. Lembre-no, no entanto, que esses orixás são muito elevados, não espíritos que você pode forçar a cumprir suas ordens. Aproxime-se sempre deles com respeito se você deseja sua ajuda para resolver problemas ou situações.

Xapanã - O dono da terra

Xapanã é o Grande Orixá do povo do Dahomey, o orixá das doenças. Embora fosse um rei no Dahomey, é uma divindade muito humilde. É conhecido no Brasil como Obaluayê, Omulu. Em Cuba, é conhecido como Azowano. Enquanto na Bahia é considerado que Obaluayê é a forma mais jovem deste orixá e Omulu a forma mais velha, no Rio Grande do Sul Xapanã é a forma jovem e Sakpatá é a forma velha. É chamado o rei do mundo, porque está associado ao elemento terra e pela sua capacidade de controle sobre este elemento. Devido a esta habilidade, é um orixá que, além de curar doenças, pode trazer prosperidade. É associado, também, com o planeta Saturno.

Ele habita os pântanos e florestas tropicais. Ele gosta destes lugares porque são lugares de vida, mas, também, de decadência e putrefação. As folhas velhas que apodrecem no chão da floresta, dão vida às outras árvores e plantas. É um outro ciclo de morte e renascimento, assim como ele foi enterrado com sua mãe, Nanã, e depois renasceu da terra. Assim, Xapanã é um orixá associado com a morte, o que o torna muito temido.

Como Xangô, é um rei ancestral que se tornou orixá. A dinastia de Xapanã, que usava como símbolo da casa real do Dahomey, o leopardo, durou até a colonização francesa. Este orixá é muito respeitado em todas as nações, devido à fúria que trata os malfeitores e pessoas que tratam os outros sem o devido respeito e honestidade. A ele pertencem todas as doenças espirituais e materiais, principalmente as doenças de pele, como varíola e a lepra. Uma das suas missões no mundo material e espiritual é transformar as coisas e “varrer” o que não tem mais utilidade. A essência da sua energia é, então, a transformação e a Divina Retribuição.

Às vezes, essa transformação pode ter uma conseqüência muito dolorosa, por isto associamos a energia deste orixá com o arcano XIII do Tarô - A Morte - pela objetividade com que executa esta tarefa. Tanto na África, Cuba, Brasil ou Estados Unidos, Xapanã possui, invariavelmente, o papel de “Transformador pelo Sofrimento”. É um orixá que transmite muito medo aos adoradores, gerando temor e respeito, ao mesmo tempo.

No Brasil, a imagem de Xapanã foi suavizada pela utilização do sincretismo com São Lázaro. Lázaro é o leproso gentil e humilde. Por isto ele se tornou o protetor amável do fraco e do doente. Os babalorixás, porém, ainda guardam a imagem de Xapanã como uma divindade temerosa e formidável, apesar deste sincretismo. Ele é o orixá das pestilências e epidemias e é freqüentemente chamado de o Mensageiro da Ira dos Orixás. Desta forma, ele possui o poder de entregar para o mundo os resultados terríveis das ações dos homens, como possui, também, o poder de aliviar a carga dos ombros das suas vítimas.

Para entender melhor a natureza deste orixá, você terá de examinar as suas lendas. Não importa o país onde esteja, Xapanã é descrito como um leproso, um mendigo e um exilado. Onde quer que ele passasse, todos lançavam água no caminho por onde passou, para retirar o odor que ele havia deixado. Ele representa o elemento da sociedade com que a elite dominante não quer conversar. No passado, Xapanã era o protetor das vítimas das pestilências, mendigos e todos aqueles que viviam à margem da sociedade. Hoje ele se tornou o protetor daqueles que são afligidos pela AIDS e pelo HIV. Olharmos para aqueles que sofrem com as epidemias ou com a pobreza como vítimas do trabalho de Xapanã é um erro brutal com a natureza deste Orixá. Olhando a lenda, vemos que não é Xapanã, a vítima da pestilência, o mendigo que são os antagonistas, é a grande sociedade e suas regras. Xapanã é o homem humilde que faz o melhor que pode para conquistar seu espaço, apesar das debilidades. É escarnecido, desprezado, exilado. Então, faz com que seu verdadeiro poder fique aparente. No final das lendas, sempre a regra acaba mostrando sua crueldade e aqueles que zombaram de Xapanã, acabam vítimas das pestilências pelas quais o perseguiram.

A lenda retrata brilhantemente a natureza da sociedade e da cultura, como também a aflição que os homens sofrem pelas mãos de seus semelhantes, que conduzem a camada social dominante. Vemos que as vítimas de epidemias e da pobreza raramente são membros da classe dominante (no princípio, pelo menos), podemos comparar a cultura moderna com as lendas de Xapanã. Quando, mais adiante, a epidemia e a pobreza infesta os degraus superiores da pirâmide econômica, as coisas ficam bem claras.

A própria história da AIDS pode ser uma história moderna de Xapanã. Os primeiros atingidos pela doença eram, principalmente, os gays e usuários de drogas intravenosas. O governo não quis reconhecer o fato de que um problema existia e nem mesmo se interessou em fazer alguma coisa. Depois de um ano de reconhecida a epidemia, os governos passaram a apoiar e financiar as pesquisas para encontrar uma cura.

O movimento para encontrar a cura só foi iniciado quando a epidemia saiu do gueto dos gays e drogados e passou a atingir os membros da camada dominante. Como a AIDS, ninguém quer fazer nada a respeito da pobreza, até que ela começa a pisar nos seus calcanhares. No final de muitas versões das lendas de Xapanã, vemos aqueles que o exilarem fazendo ebós para apaziguar a ira do orixá. Mas Xapanã não perdoa nem é enganando facilmente. Como nas histórias sagradas e no mundo ao nosso redor, esses que separam os pobres e estão imunes às epidemias, invariavelmente, descobrem a sua igualdade, com o passar do tempo. Assim, todos somos vítimas de nossas próprias ações. Mesmo que de tenhamos livre arbítrio e a possibilidade de mudar o rumo das nossas vidas de acordo com o nosso potencial, ninguém está só no mundo.

É verdade que a AIDS se espalhou muito depressa entre a comunidade gay, devido a sua tendência para a promiscuidade. É verdade, também, que este segmento da cultura gay é uma extensão da sociedade dominante que reprime a possibilidade do casamento entre homossexuais. O ódio da sociedade, dirigido aos homossexuais é aceito e com freqüência interiorizado nos homossexuais, manifestando-se na forma de promiscuidade e outras tendências autodestrutivas. Deste modo, a realidade autocriada trabalha de mãos dadas com a realidade criada pela sociedade em geral. Uma coisa que essa sociedade esqueceu é que aquele ódio destinado aos homossexuais e a promiscuidade são proporcionalmente idênticos no mundo heterossexual. Além do abandono àqueles que contraíram a doença, o governo tratou com a epidemia com indiferença, deixando o público ignorante, desprotegido e temeroso. Isto contribui para a expansão da pestilência de uma maneira ainda mais prejudicial. Com a pobreza é a mesma coisa. Em países do Terceiro Mundo, os recursos são escoados por aqueles que estão no poder, deixando os cidadãos quase sem nenhuma possibilidade de saírem de uma situação de necessidade na qual se encontram. Nas cidades, o auto-ódio interiorizado e um desespero opressivo entre vários grupos não só conduz a estilos de vida autodestrutivos mas também gera guerra entre estes grupos. As facções do governo e da sociedade unidos, têm interesse em que isso continue assim, nivelando a pobreza e deixando o empobrecido com poucas opções, sendo obrigado a permanecer assim. Se temos de aprender alguma coisa com a lenda de Xapanã, é que ele não pode ser banido. Aqueles afligidos com doenças, pobreza e escassez não são suas vítimas, são seus mensageiros. Tentar bani-los para uma posição invisível nunca funcionou. Os que estão doentes ou empobrecidos nem sempre são vítimas do seu karma, são uma advertência, os arautos da ira de Deus que ainda virá. Eles são os sinalizadores que nos falam que não podemos fazer aos outros sem fazer, simultaneamente, a nós mesmos. Nós não podemos apontar aos afetados pela doença e pela pobreza, sem apontar a nós mesmos. Se entendermos que nós somos células de um corpo, então temos que perceber que juntos criamos a nossa situação. Se somos o pobre da favela ou o morador dos ricos condomínios, se somos a prostituta com AIDS ou um congressista, temos que entender que o desejo de colocar a culpa nos outros serve apenas para encobrir nossa própria responsabilidade.

Ver cada pessoa como uma ilha é desmembrar o corpo maior. É mais confortável pensar que as tragédias atingem só “aquelas pessoas”, mas, como nas lendas de Xapanã, descobriremos, eventualmente, que nós somos “aquelas pessoas”. Nós somos os empobrecidos, as vítimas da pestilência, os desterrados.

Armas e Ferramentas dos Orixás

Algo que sempre me chamou a atenção desde o primeiro dia que adentrei num quarto de santo e pude ver as “famosas pedrinhas”, eram seus acompanhamentos, as armas e ferramentas de cada Orixá. Confesso que me despertaram uma curiosidade ímpar. Eu sempre ao longo de minha trajetória dentro da religião, me acostumei a sempre de longe, olhas os assentamentos dos Ocutás e as ferramentas de todos os Orixás, que acompanham nossos Ocutás.

Achei tão interessante a temática, que coincidentemente, nessa semana, recebi um e-mail que as ordenavam focadas a cada Orixá, suas qualidades e suas classes. Compartilho esse e-mail conforme abaixo segue.

BARÁ ( Elegba )
Lança, Rebenque, Foice, Corrente, Ponteira, Tridente, Gadanho,
Chave, Xaivá, Cadeado, Canivete, Sineta, Cachimbo de Barro ou de
Taquara, Moedas, Búzios.
BARÁ ( Lodê )
Corrente, Porrete de Cambuí, Xaivá, Gadanho, Chave, Cadeado,
Ponteira, Canivete, Cachimbo de Barro ou de Taquara, Foice, Sineta,
Moedas, Búzios.
BARÁ ( Lanã, Adague, Agelú )
Corrente, Foice, Chave, Cadeado, Ponteira, Porrete de Cambuí,
Sineta, Canivete, Moedas, Búzios.

OGUM ( Avagã )
Cobra feita de Aço, Lança feita de Aço, Bigorna, Malho, Martelo,
Tenaz, Alicate, Ferradura, 07 Cravos de Ferradura, Ponteira, Prego,
Capacete, Foice, Trilho de Trem, Xaivá, Lima, Espora, Escudo,
Troques, Parafuso com Porca, Dobradiça, Pá, Enxada, Moedas, Búzios,
Espada.

OGUM ( Onira, Olobedé, Adiolá )
Cobra feita de Aço, Lança feita de Aço, Espada, Bigorna, Malho, Pá,
Martelo, Alicate, Tenaz, Ferradura, 07 Cravos de Ferradura, Prego,
Ponteira, Lima, Capacete, Xaivá, Espora, Troquês, Parafuso com
Porca, Dobradiça, Marreta, Enxada, Moedas, Búzios.

IANSÃ ( Oiá Timboá, Oiá Dirã )
Espada, Aliança ( um par ), Raio de 02 ou 04 Segmentos, Punhal,
Taça, Coração, Leque de Penas, Vassoura de Crina de Cavalo, Cálice,
Espelho, Pente, Espada feita em Raio, Relho feito de Crina de
cavalo, Rebenque de 03 Pernas, Moedas, Búzios.

IANSÂ ( Oiá, Iansã )
Espada, Cálice, Taça, Espelho, Pente, Alianças ( um par ), Coração,
Raio de 02 ou 04 segmentos, Espada feita em Raio, Relho de Crina de
Cavalo, Leque de Penas, Moedas, Búzios.

XANGÔ ( Agandjú Ibeje )
Brinquedos em geral, Mobília para Criança brincar, Um Vulto (
boneco ) Masculino de madeira, Mamadeira, Chocalho,Bonecas,
Bichinhos, Estrela de 06 pontas, Pedras de Fogo, Raio de 03
Segmentos, Moedas, Búzios.

XANGÔ ( Agandjú, Agodô )
Espada, Balança, Livro, Tinteiro, Pilão com mão de pilão, Punhal,
Enxó ( Machado de Garela ), Raio de 03 segmentos, Estrela de 06
pontas, Pedra de Fogo, Uma Pena de escrever ( Caneta ou Lápis ),
Machado de 02 Lados, Moedas, Búzios.

ODÉ
Arco e Flecha, Um Vulto ( Boneco ) Masculino de Madeira, Espingarda,
Faca do Mato, Funda, Bodoque, Tacape, Machado
( Simples ), Lança, Moedas, Búzios.

OTIM
Arco e Flecha,Um Vulto ( Boneco ) Feminino de Madeira, Espingarda,
Faca do Mato, Funda, Bodoque, Tacape, Machado
( Simples ), Lança, Moedas, Búzios.

OBÁ
Rolimã, Navalha, Orelha, Espada, Roda de Madeira, moedas, Búzios.

OSSANHA
Um Pé de Madeira, Um Vulto ( Boneco ) Masculino de Madeira e com uma
Perna só, Um Par de Muletas, Tesoura, Agulha, Linha de Cozer,
Figueira de Ossanha de Metal com Búzios, Corrente feito de Cobre com
todos os Fetiches de Ossanha, Bisturi, Plaina, Esquadro, Compasso,
Serrote, Prego, Martelo, Formão, Arco e Púa, Pinça, Faca, Enxada, Pá
de Corte, Pá de Concha, Ancinho ( Rastilho ), Facão, Lima,
Grossa, Cachimbo de Madeira, Moedas, Búzios.

XAPANÃ ( Jubeteí, Belujá, Sapatá )
Vassoura, Cachimbo, Gadanho, Relho de crina de Cavalo, Revólver,
Chicote, Moedas, Búzios.

OXUM ( Epandá Ibeje )
Brinquedos em geral, Mobília para Criança Brincar, Um Vulto (
Boneco ) Feminino de Madeira, Mamadeira, Chocalho, Bonecas,
Bichinhos, Pente, Espelho, Brinco, Leque de Ouro ( Dourado ou de
Latão ), Corrente de Ouro ( Dourada ou de Latão ), Bracelete de Ouro
( Dourado ou de Latão ), Moedas de Ouro ( Dourado ou de Latão ),
Peneira, Espada, Punhal, Lua Crescente, Coração de Ouro ( Dourado ou
de Latão ), Estrela, Peixe, Caramujo, Sol de Ouro ( Dourado ou de
Latão ), Anel com Pedra Vermelha ( Rubí ), Moedas, Búzios.

OXUM ( Epandá, Ademun, Olobá, Adocô )
Espelho, Pente, Coração de Ouro ( Dourado ou de Latão ), Caramujo,
Peixe, Estrela, Lua Crescente, Sol de Ouro ( Dourado ou de Latão ),
Punhal, Espada, Peneira, Brinco, Moedas de Ouro ( Dourado ou de
Latão ), Bracelete de Ouro ( Dourado ou de Latão ), Corrente de Ouro
( Dourado ou de Latão ), Leque de Ouro (Dourado ou de Latão ),
Moedas, Búzios.

Epandá: As ferramentas e armas acrescidas de um anel com pedra
vermelha ( Rubi ).
Ademun: As ferramentas e armas acrescidas de um anel com pedra
amarela ( Topázio ).
Olobá: As ferramentas e armas acrescidas de um anel com pedra
amarela ( Topázio ).
Adocô: As ferramentas e armas acrescidas de um anel com pedra branca
( Brilhante ).

IEMANJÁ ( Bocí, Bomi, Nanã Borocum )
Âncora, Leme, Navio, Jóias de Prata, Caramujo, Peixe, Cavalo-
Marinho, Estrela-Marinha, Espada, Meia Lua, Comêta, Remo, Pérola,
Concha, Macassite de Prata, Concha Madrepérola, Moedas, Búzios.

OXALÁ ( Obocum, Olocum, Dacum, Jobocum )
Bastão, Jóias de Prata, Caramujo, Sabre, Estrela de 8 pontas,
Espada, Pilão de Madeira, Pomba de Metal ou Prata, Sol, Moedas,
Búzios.

OXALÁ ( Oromilaia )
As ferramentas e armas de Oxalá, acrescidas de um par de olhos de
vidro.

As ferramentas e as armas dos Orixás devem acompanhar o Acutá do
Orixá no momento em que o Babalorixá ou Yalorixá começar a fazer a
primeira feitura para a preparação de assentamento de Orixás,
devendo também, estarem sempre juntas ao Orixá mesmo depois de
assentado, durante toda a vida do futuro Babalorixá ouYalorixá.

Fonte:OS FUNDAMENTOS RELIGIOSOS DA NAÇÃO DOS ORIXÁS (Paulo Tadeu
Barbosa Ferreira) Editora TOQUÍ 1983

Odé e Otin, os caçadores

Ode onija
Sese lehin aso
Ee ko po de
Oju t’ori egbin ko fo
Ojo po iya ma bi
A kere togbonsinon
Ode ko ti ku agbanli
O si’di bata leriebe
Ode nwo mo eru nba mi

Odé (Batuque), orixá da caça, também conhecido como Oxóssi no resto do país.

Ele parece ter escapado da atenção dos etnologistas, principalmente, porque o seu culto é muito exclusivo e se concentrou a certas áreas geográficas. A sua iconografia não está repleta de esculturas suntuosas, como Xangô e Exu.

O seu culto floresceu em Cuba e no Brasil, mas, infelizmente, está quase desaparecido na África. A razão histórica para isso é que Ketu, o Reino do Benin, onde Odé era cultuado, foi repetidamente atacado pelos daomeanos desde 1789 e a maioria dos seus sacerdotes foram escravizados e transportados para o Novo Mundo (Maceiro, 1981). A predominância da influência Ketu na tradição religiosa do Brasil ajudou o culto de Odé a florescer até a atualidade. Existem muitos sacerdotes iniciados para Odé no Brasil e, inquestionavelmente, é uma das “cabeças” mais populares entre as nações.

Odé é muito importante no Brasil. Seu nome (Odé) foi fragmentado e traduzido por alguns por “feiticeiro” (òsó-òsì). Ele possui um grande poder mágico com os seus preparados de folhas das matas, as quais ele conhece muito bem. Por possuir a natureza de um caçador, ele conhece os venenos que precisa usar para atrair sua presa. Ele é o nosso defensor físico e provedor de alimento. É o nosso método de sobrevivência.

Ele também está preocupado com o nosso bem-estar. Devido ao tempo em que passa na floresta, aprende os segredos das folhas e medicamentos de Ossayim. Na nação jeje, ele é um Olossayim (sacerdote de Ossayim), treinado na preparação de medicamentos e talismãs. É, também, um caçador que encontra um novo solo satisfatório para estabelecer tribos. Representa, assim, a transição da vida nômade para a vida de subsistência pela agricultura. É o fundador e patriarca da comunidade e da ordem social.

No Brasil, Odé é sincretizado com São Sebastião. Como já afirmei em outra ocasião, você não precisa ter nada a ver com os santos católicos para adorar os orixás. Apenas incluo essa informação para dar uma perspectiva histórica.

Cernunos é a deidade gaulesa associada com a caça. Freqüentemente é pintado com os chifres de um veado. Os seus sacerdotes até hoje se utilizam de máscaras com chifres de cervo. Aqui há uma conexão muito direta com Odé. Odé é o orixá caçador e usa um arco e flecha para caçar, porque estes eram os instrumentos de um caçador na sociedade primitiva. Naturalmente, foram caçados cervos na África, da mesma maneira que foram em todo o mundo. Um dos elementos principais que compõem o assentamento de Odé é um par de chifres de cervo. Nas sociedades primitivas, a caça era tudo. Nesta sociedade não existiam agricultores e o seu modo de vida dependia exclusivamente da caça e do sucesso de seus caçadores. E, então, eram feitas cerimônias para propiciar o Deus da Caça, para o bem de toda a comunidade.

Pashupate é o deus hindu dos animais selvagens e é mostrado como uma entidade com chifres. Ele é a versão hindu de Cernunos e Odé. Vindo da área indo-ariana do mundo, é possível que a adoração de Cernunos seja contemporânea com a adoração de Pashupate. Onde isso me possibilita a união com a adoração de Odé na África? Considerando que a África está muito longe de ser unida geograficamente a estes rito primordiais, temos que assumir que o culto de Odé floresceu na sociedade africana independente de qualquer outra influência. Isto, justamente, vem contribuir para a universalidade das religiões que estão conectadas na adoração das forças naturais.

Herne é a versão céltica do deus caçador na Inglaterra. Ele é, particularmente, associado com a Floresta de Windsor. É o deus da caça selvagem e é sempre visto com os seus cachorros participando de uma caçada. Os cachorros estão associados com Odé e muitos dizem que ele é o dono dos cachorros e não Ogum. Por andar sempre à noite, Herne foi associado com os espíritos da noite e isso passou a causar muito medo nas pessoas. Por isso, é associado com magia e bruxaria. Isto acontece com Odé, também, pois ele é considerado um orixá que está associado com as entidades que abundam na floresta africana e que possuem grande poder mágico. Odé, também, é um orixá de inteligência. Quando alguém está fazendo algum ritual para Odé, implorando a sua ajuda, deveria pedir a ele que lhe desse inteligência para resolver seus problemas. Os orixás ajudam os que se ajudam e você não pode sentar-se na sombra e esperar que eles resolvam todos os seus problemas sem investir nenhum esforço no problema. Candomblé ou Batuque é um caminho que requer muito trabalho. Os rituais envolvidos, às vezes, são longos e complicados. Precisamos aprender de que forma podemos ser efetivos, como, também, fazer muitas tarefas de maneira correta. É uma religião primitiva e, definitivamente, não é feita para o ocultista de escrivaninha, que não é simpático ao trabalho físico ou não gosta de “sujar” suas mãos em qualquer forma de trabalho físico.

Aqui no Brasil, Odé é relacionado aos espíritos indígenas. Isso é muito natural, pois temos a maior floresta tropical do mundo. Considerando que os conquistadores trouxeram as doenças e o extermínio, e conseguiram reduzir drasticamente a população indígena, Odé, sendo o caçador da floresta, logicamente, seria conectado a todos os espíritos que vivem em seu domínio. Isto, talvez, seja responsável pelo grande poder que Odé tem no Brasil e é muito venerado na Umbanda, onde é cultuado na forma de diversos “Caboclos”. Freqüentemente, vemos médiuns trabalhando com Odé, vestindo roupas que lembram a cultura indígena brasileira. Você já deve ter entrado em alguma floresta tropical, ou sub-tropical, e, certamente, deve ter ficado impressionado com a variedade de vegetais existentes nestas florestas do que os que existem nas florestas do hemisfério norte. Isso faz com que se note um grande poder nestes locais. A presença de espiritual é constante. Logicamente, não devemos nos esquecer da presença de Ossayim nas florestas. Se você entra em um bosque para fazer algum trabalho mágico ou para recolher folhas e plantas para fazer magia, deve-se sempre deixar uma oferenda para Ossayim, pedindo permissão para levar o que precisa. Na nossa tradição, plantas e árvores também possuem espírito, e são iguais aos animais e seres humanos. Se levarmos uma planta a ser usada em um ritual de cura e não executamos os procedimentos corretos, é mais provável que seus efeitos serão nulos.

Além do papel de Odé como caçador e bruxo, também é considerado um grande vidente. Seus filhos, normalmente, possuem habilidades psíquicas.

Otin é muito conhecida em Cuba. É um orixá feminino, ligado aos caçadores, especialmente Odé, sendo sua esposa. É também relacionada a Yemanjá (é conhecida como a âncora de Yemanjá). No Candomblé, em várias nações, Otin é vista como um orixá masculino, parte de um panteão de orixás caçadores, sendo uma qualidade de Odé. Só no Batuque, no Rio Grande do Sul, Otin é adorada como um orixá feminino, conhecida como a esposa de Odé. Na Nigéria, Otin é venerada como uma deusa fluvial. Seu culto teve origem em Inisa. É dever da família real de Okuku adorá-la como fundadora da cidade. Em uma lenda, Otin apareceu ao Príncipe Aramoko e lhe mostrou a região, próxima a seu rio, onde eles deveriam se estabelecer. Em Okuku, Otin é muito unida a Odé e a Oxum.

Obá - Lar, doce lar

Obá é considerada a esposa legítima de Xangô. É considerada o Orixá da casa e do matrimônio, representando a esposa dedicada que espera pelo marido. Na África, Obá é considerada, também, uma deusa dos rios, como Oxum. Diz-se que o Rio Oxum conhece o Rio Obá, e suas águas ficam muito agitadas cada vez que elas lutam por Xangô. No Brasil a adoração a Obá está muito apagada, assim como em outros locais, onde a adoração aos orixás é mais pronunciada, como os países do Caribe. No entanto, na África, o culto a Obá continua sendo muito forte.
Em diversas regiões, Santa Catarina é a santa católica que representa Obá. A razão para isto não está clara, mas talvez, seja porque a imagem da santa esteja com a cabeça embrulhada. Isto poderia estar relacionado ao fato de que Obá teve de embrulhar sua cabeça no dia em que cortou a orelha para fazer uma comida para Xangô, pensando que iria lhe agradar.

A lenda conta que Obá tinha muito ciúme de Oxum, porque esta tinha muita habilidade para atrair o Rei e um dia Obá perguntou a Oxum qual era seu segredo. Oxum lhe disse que a maneira de chegar ao coração de um homem era através do estômago. Como Oxum estava com a cabeça toda coberta, contou a Obá que tinha feito uma refeição para Xangô com a sua orelha como principal ingrediente e que isto tinha encantado Xangô, de forma que nunca mais ele pensaria em outra mulher. Obá não hesitou e decidiu tentar essa fórmula com Xangô e na primeira vez que ele esteve em casa, ela preparou uma sopa. Quando Xangô perguntou para comer e viu a orelha que flutuava na sua sopa, ficou horrorizado e rasgou a cobertura da cabeça de Obá e viu o que ela tinha feito. Ficou furioso e disse que nunca iria ficar com uma mulher mutilada. Obá ficou louca e saiu correndo pela floresta, gritando, envergonhada e furiosa com o artifício que Oxum havia usado contra ela. Obá era uma mulher muito bonita antes de remover a sua orelha.

No Egito, Mut era a patrona dos reis de Thebes. Era considerada a mãe divina desta linhagem. Tornou-se esposa de Amon, o deus do sol. Como protetora da linhagem dos faraós, ela estava muito preocupada em manter a casa real. Isto corresponde com a minha visão de Obá, como a guardiã do forno e protetora da casa. Como Hera, ela era suspeita de estar envolvida em esquemas para manipular o destino entre os mortais. Ela é pintada, freqüentemente, como uma cabeça de abutre e, às vezes, é vista com um corpo humano e a cabeça de um abutre. O simbolismo do abutre a identifica realmente com o culto dos mortos e Obá possui suas conexões com os mortos, da mesma forma que Oyá e Oxum. Também se diz que Mut era mãe de Khonsu, o deus da Lua. Mut mantém uma aura de mistério, da mesma maneira que Obá. Eu sinto que a história completa destas deusas não é conhecida, ou, pelo menos, não está sendo contada.

Hera, como Obá, também era uma vítima. Obá teve de suportar Xangô e Hera teve de agüentar os constantes avanços de Zeus com outras deusas e também com as mortais. Hera foi considerada a rainha dos deuses e executava um ritual especial, todos os anos, para manter-se jovem e bonita. A lenda também diz que Obá era muito bonita, até que se desfigurou para agarrar Xangô. Tanto Hera como Obá amavam seus maridos e estavam dispostas e usar quaisquer meios para prenderem eles. Ambas pareciam estar mais preocupadas com a casa, em lugar de ter alguma preocupação com filhos ou crianças. No entanto, Hera parece ter sido mais vingativa que Obá. O sentimento de Obá parece ter sido mais de tristeza, em lugar de raiva e vingança, como era o caso de Hera. Parece que a lenda retrata tragédias que acontecem com muita freqüência com o ser humano e nós temos, aqui, o exemplo de deusas que são vítimas do destino.

Juno era o equivalente a Hera na mitologia romana. Porém, havia algumas diferenças. Juno era a deusa oficial do matrimônio. Embora, e talvez, devido ao fato de Júpiter, como Zeus, ser um marido “pulador de cerca”, Juno tornou-se a deusa do matrimônio. A lição aqui poderia ser que, se Juno conseguia manter seu casamento, apesar dos problemas, então ela poderia ajudar as mulheres mortais a fazer o mesmo. Este era o caso de Obá e Xangô, e, não esqueçamos, Júpiter e Zeus são deuses do trovão, com correspondências diretas com Xangô. Sendo Obá o orixá da casa, muitos ebós são feitos para que ela preserve a integridade da casa e do matrimônio. Obá é considerada, também, a tesoureira dos orixás. Significa que Obá pode ser muito influente para trazer dinheiro e prosperidade para uma casa.

Na mitologia grega, Héstia era uma deusa secundária, mas tinha uma posição muito importante em cada casa. Héstia era a deusa da casa e santuários em sua homenagem eram feitos em sua honra em todas as casas. Era considerada a deusa do forno ou da lareira e encarregada de proteger a casa e seus habitantes. Nos seus altares, ofereciam comida e bebida permanentemente. Aqui temos um bom exemplo de magia prática. Os gregos trabalhavam com esta deusa da mesma forma que os africanos trabalhavam com seus orixás. Eram feitas oferendas na expectativa que a proteção do deus ou deusa, em questão, fosse concedida como recompensa a atenção dispensada. Este é exatamente o mesmo procedimento que entre em jogo quando lidamos com os orixás. Você dá para receber. Fizemos sacrifícios de comida, bebida, ou animais para propiciar a ajuda dos orixás. O sacrifício é a palavra chave aqui. Sacrifícios nem sempre são de comida, bebida ou animais. Há o sacrifício do seu tempo, da sua energia, em executar certos rituais. Você tem que estar preparado para dar, da mesma forma que para receber!

Frigg, ou Freya, é a equivalente escandinava a Juno e Hera. Sempre existiu muito esse debate sobre as semelhanças das mitologias escandinavas, gregas e romanas.

Freya é jovem e forte, e não reflete os aspectos matrimoniais de Hera ou Juno. Tradicionalmente, Freya possui o título de “Rainha do Céu”, como Juno e Hera. Ela se preocupou com o matrimônio e com a prosperidade. Isto a coloca junto com Hera, Juno e com a nossa Obá. No entanto, na tradição escandinava, Freya parece ter alguns atributos de Oxum. Pode ser devido ao fato de que a cosmologia escandinava não era tão complicada quanto à cosmologia iorubana, que possuía muitas deusas, que representavam os mais variados aspectos da mulher. Talvez, os antepassados africanos estivessem mais atentos das diferenças sutis das mulheres, e suas deusas refletiram essa visão mais completa das mulheres, com deusas que representam aspectos muito diferentes.

A essência da energia de Obá, é, então, a união de um casal e a vontade de manter acesa a força de um casamento. Obá sente compaixão pelas mulheres que têm problemas com seus maridos e com suas casas. Mas esta é uma compaixão ativa. Obá trabalhará para curar a situação. Ela representa um aspecto da Grande Mãe e do sofrimento e, talvez, devido a este sofrimento, ela tem maior compaixão para os que buscam sua ajuda.

Xangô - O Estrategista

Um dos orixás mais venerados em toda a Diáspora e conhecido como a mais forte expressão masculina da energia dos orixás. Xangô é a essência da estratégia.
Associamos este orixá ao deus grego Zeus e o deus romano Júpiter, pois todos eram reis e donos dos raios e deuses muito poderosos. Este é o poder de Xangô. Inimigo do mal e do sofrimento, é um orixá muito íntegro e adora corrigir erros.

Segundo a lenda, Xangô era um rei muito poderoso, que não mostrava nenhuma clemência aos seus inimigos e sua fama se espalhou por toda a África. Sua personalidade foi tão notável que seu espírito foi elevado ao status de orixá, depois da sua morte. Honrado pela maioria dos territórios africanos, de onde até mesmo os Bantos da área do Congo vieram lhe prestar homenagem. Lá ele era chamado de Nsasi. No Daomé era chamado de Hevioso e Djakutá. Sua popularidade não se extinguiu na África, mas se espalhou também pela América, onde a cada dia aumenta a devoção ao nosso amado Xangô.

Apesar de sua integridade, Xangô não é um orixá moralista. Digamos que é um excelente estrategista. Afinal, um rei próspero é, geralmente, um ótimo estrategista. Se nos referirmos à sua energia como tendo o “poder da dança”, o “poder do tambor”, o “poder da palavra”, podemos ter alguma idéia da posição deste orixá no panteão. A habilidade para falar é essencial a um estrategista. A habilidade de Xangô em visualizar o futuro e de ter comprado de Orunmilá as suas habilidades, é um outro modo de reconhecer o grande estrategista que está olhando os movimentos do futuro.

A expressão de Xangô, ao invés da essência da sua energia é bastante interessante. Em nossa cultura ocidental, a satisfação a curto prazo é o que todos querem e esta habilidade para manobrar os outros se expressa em um comportamento ruim. Desta forma, Xangô sempre está predisposto a oferecer satisfação a curto prazo, sem levar em conta as conseqüências a longo prazo. A confiança de Xangô de que sua energia sempre vai descobrir uma forma de se livrar das dificuldades leva a isto. Mas, esta é a expressão da energia, não sua essência.

Não é uma falha em Xangô, mas em nossa sociedade.

A utilização da energia de Xangô pode ser poderosa e construtiva, mas, examine o seu caráter antes de utilizá-la. Muitas das lendas de Xangô o mostram em relação com diversas mulheres. Yemanjá era sua mãe. Teve relações com Oxum, Oyá e Obá. Obá era sua esposa legítima, mas ele gastou muito mais tempo com Oxum e Oyá. Era um verdadeiro mulherengo e as mulheres o amavam. Depois de ter trocado suas ferramentas de adivinhação com Orunmilá em troca da habilidade de dançar e falar, nada o deteve. Mas, freqüentemente, isto lhe causou problemas e teve de perder muito tempo em guerras. Xangô tinha um grande poder psíquico e o utilizava para se sair vitorioso das diversas situações perigosas que vivera. Os filhos de Xangô nascem, em sua maioria, com essas habilidades. Assim, se for filho de Xangô, procure desenvolver sua espiritualidade ao máximo. Da mesma maneira que o leão é considerado o rei da selva, Xangô é considerado um rei. Talvez, por isso, tenha sido feita sua associação com São Jerônimo.

Outro ponto a observar é que quando você é iniciado nos mistérios africanos, também é considerado um rei ou rainha. Quando o orixá é colocado em sua cabeça, você recebe sua coroa. A cerimônia de “feitura de santo” o torna sacerdote ou sacerdotisa da tradição e assenta para sempre seu orixá pessoal em sua cabeça. Esta é uma das razões principais para ser iniciado. Com seu orixá corretamente assentado em sua cabeça, ele irá lhe proteger e lhe dar todas as bênçãos que você merece. Assim, os orixás podem fazer milagres e também evitar sofrimentos ou infortúnios e afastar as entidades negativas. Na tradição africana, estas coisas podem ser controladas a um certo grau com sacrifícios e outras cerimônias.

Um dos símbolos de Xangô é o Oxé, um machado que possui duas lâminas. Esta é a arma que Xangô utilizava para destruir seus inimigos e também é um símbolo do equilíbrio. Da mesma forma, associamos a Xangô a balança, também símbolo do equilíbrio e da justiça, da qual ninguém consegue fugir. Uma forma de Oxé também era utilizado no império romano para simbolizar a autoridade do Imperador e o poder que ele tinha.

Apesar de todo o seu poder, a energia de Xangô não é utilizada indiscriminadamente. Seu trabalho é cuidar das leis universais. Sua ira não é dirigida a qualquer um, mas para aqueles que cometeram alguma infração ou foram injustos. Ele não só protege seus filhos, mas todos os outros filhos dos outros orixás. Qualquer um que se sinta prejudicado pode buscar a ajuda de Xangô, se são, verdadeiramente, as vítimas da injustiça.