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segunda-feira, 2 de julho de 2007

Xapanã - O dono da terra

Xapanã é o Grande Orixá do povo do Dahomey, o orixá das doenças. Embora fosse um rei no Dahomey, é uma divindade muito humilde. É conhecido no Brasil como Obaluayê, Omulu. Em Cuba, é conhecido como Azowano. Enquanto na Bahia é considerado que Obaluayê é a forma mais jovem deste orixá e Omulu a forma mais velha, no Rio Grande do Sul Xapanã é a forma jovem e Sakpatá é a forma velha. É chamado o rei do mundo, porque está associado ao elemento terra e pela sua capacidade de controle sobre este elemento. Devido a esta habilidade, é um orixá que, além de curar doenças, pode trazer prosperidade. É associado, também, com o planeta Saturno.

Ele habita os pântanos e florestas tropicais. Ele gosta destes lugares porque são lugares de vida, mas, também, de decadência e putrefação. As folhas velhas que apodrecem no chão da floresta, dão vida às outras árvores e plantas. É um outro ciclo de morte e renascimento, assim como ele foi enterrado com sua mãe, Nanã, e depois renasceu da terra. Assim, Xapanã é um orixá associado com a morte, o que o torna muito temido.

Como Xangô, é um rei ancestral que se tornou orixá. A dinastia de Xapanã, que usava como símbolo da casa real do Dahomey, o leopardo, durou até a colonização francesa. Este orixá é muito respeitado em todas as nações, devido à fúria que trata os malfeitores e pessoas que tratam os outros sem o devido respeito e honestidade. A ele pertencem todas as doenças espirituais e materiais, principalmente as doenças de pele, como varíola e a lepra. Uma das suas missões no mundo material e espiritual é transformar as coisas e “varrer” o que não tem mais utilidade. A essência da sua energia é, então, a transformação e a Divina Retribuição.

Às vezes, essa transformação pode ter uma conseqüência muito dolorosa, por isto associamos a energia deste orixá com o arcano XIII do Tarô - A Morte - pela objetividade com que executa esta tarefa. Tanto na África, Cuba, Brasil ou Estados Unidos, Xapanã possui, invariavelmente, o papel de “Transformador pelo Sofrimento”. É um orixá que transmite muito medo aos adoradores, gerando temor e respeito, ao mesmo tempo.

No Brasil, a imagem de Xapanã foi suavizada pela utilização do sincretismo com São Lázaro. Lázaro é o leproso gentil e humilde. Por isto ele se tornou o protetor amável do fraco e do doente. Os babalorixás, porém, ainda guardam a imagem de Xapanã como uma divindade temerosa e formidável, apesar deste sincretismo. Ele é o orixá das pestilências e epidemias e é freqüentemente chamado de o Mensageiro da Ira dos Orixás. Desta forma, ele possui o poder de entregar para o mundo os resultados terríveis das ações dos homens, como possui, também, o poder de aliviar a carga dos ombros das suas vítimas.

Para entender melhor a natureza deste orixá, você terá de examinar as suas lendas. Não importa o país onde esteja, Xapanã é descrito como um leproso, um mendigo e um exilado. Onde quer que ele passasse, todos lançavam água no caminho por onde passou, para retirar o odor que ele havia deixado. Ele representa o elemento da sociedade com que a elite dominante não quer conversar. No passado, Xapanã era o protetor das vítimas das pestilências, mendigos e todos aqueles que viviam à margem da sociedade. Hoje ele se tornou o protetor daqueles que são afligidos pela AIDS e pelo HIV. Olharmos para aqueles que sofrem com as epidemias ou com a pobreza como vítimas do trabalho de Xapanã é um erro brutal com a natureza deste Orixá. Olhando a lenda, vemos que não é Xapanã, a vítima da pestilência, o mendigo que são os antagonistas, é a grande sociedade e suas regras. Xapanã é o homem humilde que faz o melhor que pode para conquistar seu espaço, apesar das debilidades. É escarnecido, desprezado, exilado. Então, faz com que seu verdadeiro poder fique aparente. No final das lendas, sempre a regra acaba mostrando sua crueldade e aqueles que zombaram de Xapanã, acabam vítimas das pestilências pelas quais o perseguiram.

A lenda retrata brilhantemente a natureza da sociedade e da cultura, como também a aflição que os homens sofrem pelas mãos de seus semelhantes, que conduzem a camada social dominante. Vemos que as vítimas de epidemias e da pobreza raramente são membros da classe dominante (no princípio, pelo menos), podemos comparar a cultura moderna com as lendas de Xapanã. Quando, mais adiante, a epidemia e a pobreza infesta os degraus superiores da pirâmide econômica, as coisas ficam bem claras.

A própria história da AIDS pode ser uma história moderna de Xapanã. Os primeiros atingidos pela doença eram, principalmente, os gays e usuários de drogas intravenosas. O governo não quis reconhecer o fato de que um problema existia e nem mesmo se interessou em fazer alguma coisa. Depois de um ano de reconhecida a epidemia, os governos passaram a apoiar e financiar as pesquisas para encontrar uma cura.

O movimento para encontrar a cura só foi iniciado quando a epidemia saiu do gueto dos gays e drogados e passou a atingir os membros da camada dominante. Como a AIDS, ninguém quer fazer nada a respeito da pobreza, até que ela começa a pisar nos seus calcanhares. No final de muitas versões das lendas de Xapanã, vemos aqueles que o exilarem fazendo ebós para apaziguar a ira do orixá. Mas Xapanã não perdoa nem é enganando facilmente. Como nas histórias sagradas e no mundo ao nosso redor, esses que separam os pobres e estão imunes às epidemias, invariavelmente, descobrem a sua igualdade, com o passar do tempo. Assim, todos somos vítimas de nossas próprias ações. Mesmo que de tenhamos livre arbítrio e a possibilidade de mudar o rumo das nossas vidas de acordo com o nosso potencial, ninguém está só no mundo.

É verdade que a AIDS se espalhou muito depressa entre a comunidade gay, devido a sua tendência para a promiscuidade. É verdade, também, que este segmento da cultura gay é uma extensão da sociedade dominante que reprime a possibilidade do casamento entre homossexuais. O ódio da sociedade, dirigido aos homossexuais é aceito e com freqüência interiorizado nos homossexuais, manifestando-se na forma de promiscuidade e outras tendências autodestrutivas. Deste modo, a realidade autocriada trabalha de mãos dadas com a realidade criada pela sociedade em geral. Uma coisa que essa sociedade esqueceu é que aquele ódio destinado aos homossexuais e a promiscuidade são proporcionalmente idênticos no mundo heterossexual. Além do abandono àqueles que contraíram a doença, o governo tratou com a epidemia com indiferença, deixando o público ignorante, desprotegido e temeroso. Isto contribui para a expansão da pestilência de uma maneira ainda mais prejudicial. Com a pobreza é a mesma coisa. Em países do Terceiro Mundo, os recursos são escoados por aqueles que estão no poder, deixando os cidadãos quase sem nenhuma possibilidade de saírem de uma situação de necessidade na qual se encontram. Nas cidades, o auto-ódio interiorizado e um desespero opressivo entre vários grupos não só conduz a estilos de vida autodestrutivos mas também gera guerra entre estes grupos. As facções do governo e da sociedade unidos, têm interesse em que isso continue assim, nivelando a pobreza e deixando o empobrecido com poucas opções, sendo obrigado a permanecer assim. Se temos de aprender alguma coisa com a lenda de Xapanã, é que ele não pode ser banido. Aqueles afligidos com doenças, pobreza e escassez não são suas vítimas, são seus mensageiros. Tentar bani-los para uma posição invisível nunca funcionou. Os que estão doentes ou empobrecidos nem sempre são vítimas do seu karma, são uma advertência, os arautos da ira de Deus que ainda virá. Eles são os sinalizadores que nos falam que não podemos fazer aos outros sem fazer, simultaneamente, a nós mesmos. Nós não podemos apontar aos afetados pela doença e pela pobreza, sem apontar a nós mesmos. Se entendermos que nós somos células de um corpo, então temos que perceber que juntos criamos a nossa situação. Se somos o pobre da favela ou o morador dos ricos condomínios, se somos a prostituta com AIDS ou um congressista, temos que entender que o desejo de colocar a culpa nos outros serve apenas para encobrir nossa própria responsabilidade.

Ver cada pessoa como uma ilha é desmembrar o corpo maior. É mais confortável pensar que as tragédias atingem só “aquelas pessoas”, mas, como nas lendas de Xapanã, descobriremos, eventualmente, que nós somos “aquelas pessoas”. Nós somos os empobrecidos, as vítimas da pestilência, os desterrados.