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sábado, 18 de julho de 2009

Elogio aos Idiotas

Elogio aos Idiotas

A idiotice tem várias facetas. Há espertalhões, por exemplo, que para
não serem considerados burros aplaudem o que não entendem e há
pessoas geniais - como Eistein - que passam por idiotas. A verdade é
que os idiotas, como os sábios, tentam sempre, sem medo de errar.

Por Carlos Cardoso Aveline




Na vida acelerada do mundo de hoje, todos querem ser espertos, vivos
e astuciosos. Ninguém quer ficar para trás - quando você está indo,
os outros já estão voltando. Ninguém mais diz frases com segundas
intenções: dizem coisas com terceiras, quartas e quintas intenções.
Frases que, com sorte, um leigo demora de dez a 30 minutos para
decifrar, e até dois dias para imaginar uma resposta à altura.
Em compensação, alguém que diz diretamente aquilo que pensa acaba
provocando escândalo e mal-estar. É imediatamente catalogado como
perigoso e tratado como idiota. A sinceridade parece contrariar as
normas da convivência e da boa educação modernas. Assim, as pessoas
bem-educadas são amáveis, mas nem sempre se deve acreditar no que
dizem.

A idiotice é um tema vasto, com muitos aspectos diferentes, que
sempre esteve presente na minha vida e está inscrita com destaque na
cultura brasileira. Um exemplo disso são as tradi-cionais piadas de
português. Elas são uma projeção da brasilidade. No fundo, os
portugueses idiotas das piadas somos nós. Os episódios que envolvem
Manuel, Joaquim e Maria são todos uma parte da alma do nosso país -
tanto é assim que só são conhe-cidos no Brasil. Em Portugal, ao
contrário, circulam piadas de brasileiros.

É certo que, quando examinamos a questão da inteligência e da
idiotice, surgem algumas perguntas indiscretas: o que é, afinal,
inteligência? O que é burrice? Quantos tipos há de idiotas?

Inteligência é a capacidade de perceber o real. E, como há realidades
muito diferentes no mundo, não existe um tipo único de inteligência.
Cada situação da vida requer um tipo específico de percepção, e por
isso as inteligências são múltiplas. Por sua vez, a idiotice e a
burrice podem ser definidas como a incapacidade de perceber o real. E
são tão variadas quan- to as inteligências. Há, portanto, mui- tos
tipos de idiotas. Alguns deles, inclusive, são espertalhões. Sim, há
idiotas que passam por inteligentes, e também há pessoas inteligentes
que passam por idiotas.

Além disso, quem é inteligente em uma área da vida pode ser burro em
outras. Você é esperto em política e burro na hora de jogar futebol.
Sua namorada pode ser menos intelectual que você, na hora de discutir
filosofia, mas há aspectos da vida em que ela coloca você no chinelo.
Há coisas que seus filhos pequenos fazem bem melhor que você, como,
talvez, compreender as sutilezas de um videogame ou computador.
Felizmente, ter sabedoria não é saber tudo. Ter sabedoria é saber o
mais importante - e administrar bem os seus talentos.

Dos muitos tipos de idiotas, um dos mais interessantes foi examinado
por François Rabelais, o escritor francês do século 16. Ele abordou a
burrice específica dos "doutores" que usam palavras complicadas para
não dizer coisa alguma. Um deles - conta Rabelais - fez certo dia uma
longa pesquisa para saber "se uma entidade imaginária, zumbindo no
vácuo, é capaz de devorar segundas intenções". Outro queria saber "se
uma idéia platônica, dirigindo-se para a direita sob o orifício do
caos, poderia afastar os átomos de Demócrito". Um terceiro
investigava "se a frigidez hibernal dos antípodas, passando numa
linha ortogonal através da homogênea solidez do centro, podia, por
uma delicada antiperístase, aquecer a convexidade dos nossos
calcanhares" . Rabelais qualifica tais idiotas eruditos como
professores cegos de discípulos cegos, "que tateiam em um quarto
escuro à procura de um gato preto que não está lá".(1) Tais
indivíduos eram precursores de Rolando Lero, o grande erudito da
televisão brasileira.

Conheço seres humanos que têm tanto medo de parecer burros que
aplaudem - ou pelo menos fingem que compreendem - esse tipo de
raciocínio longo, encaracolado, sem significado algum. Mas tal
constrangimento é desnecessário: deixando de lado o medo de parecer
idiotas, perderemos menos tempo fingindo e seremos mais felizes.

O caso de um dos maiores gênios da ciência, Albert Einstein, é
ilustrativo. No início da vida, ele recusou-se a falar antes dos 3
anos de idade. Seus pais, pessoas sensatas, pensavam que fosse
retardado mental. Mais tarde, quando Einstein ingressou na escola,
ele foi novamente considerado imbecil. Seu biógrafo é obrigado a
admitir:

"Para os colegas de classe, Albert era uma anomalia que não
demonstrava interesse nenhum pelos esportes. Para os professores, era
um idiota que não conseguia decorar nada e se comportava de modo
estranho. Em vez de responder imediatamente a uma pergunta, como os
outros alunos, sempre hesitava. E, quando respondia, movia os lábios
em silêncio, repetindo as palavras." (2)

Décadas mais tarde, Einstein deu o troco. Ele qualificou o nosso
moderno sistema educacional como uma estrutura que reprime a
inteligência e busca fabricar idiotas obedientes:

"A humilhação e a opressão mental imposta por professores ignorantes
e pretensiosos causam danos terríveis na mente jovem; danos que não
podem ser reparados e que geralmente exercem influências maléficas na
vida futura." E ainda: "A maioria dos professores perde tempo fazendo
perguntas para descobrir o que o aluno não sabe, quando a verdadeira
arte consiste em descobrir o que o aluno sabe ou é capaz de saber."
(3) Por isso Mark Twain escreveu: "Nunca permiti que a escola
atrapalhasse meus estudos." E George Bernard Shaw admitiu: "Em
determinado momento, interrompi meus estudos para ingressar na
universidade. " É verdade que, desde então, o sistema educacional já
melhorou um pouco. Mas deve melhorar mais.

Einstein não estava só ao ser considerado idiota. Quando jovem, o
pensador indiano Jiddu Krishnamurti também despertou fortes suspeitas
de que era um débil mental. Durante 50 anos, no século 20, ele deu
palestras no mundo todo, e teve dezenas de livros importantes
publicados em várias línguas. Mas nos seus primeiros anos de
estudante, na Índia, Krishnamurti era incapaz de acompanhar os
estudos. Não memorizava nada, detestava os livros e ficava horas
observando a evolução das nuvens no céu, ou acompanhando a vida de
plantas ou insetos.

De fato, o santo e o idiota têm muito em comum, não só entre si, mas
também com as árvores e os animais. Todos eles vivem em um estado de
comunhão que é independente do pensamento lógico. Isso contraria a
inteligência situada no hemisfério cerebral esquerdo, que rotula e
classifica todas as coisas. Essa inteligência gosta de colocar-se
como se tivesse o monopólio da consciência. Esse, aliás, é um dos
grandes obstáculos para a prática da meditação: a mente pensante não
aceita passar o poder à mente que contempla e compreende a verdade
sem necessidade de pensamentos.

ALÉM DAS APARÊNCIAS
Elogio aos Idiotas - continuação


Ter sabedoria é saber o mais importante e administrar bem os
talentos.
A primeira frase dos famosos Ioga Sutras de Patañjali, o tratado
milenar sobre raja ioga, afirma: "Ioga é a cessação das modificações
da mente." Para alcançar a hiperconsciência, o estado mental do
êxtase divino, é necessário paralisar por um momento a mente infe-
rior. O sábio é um ser que renunciou à inteligência convencional e
optou por uma percepção que a mente comum não consegue captar. Por
isso, mesmo na sociedade brasileira do século 21, se aquele que
ingressa no caminho espiritual não tiver certos cuidados, pode ser
considerado louco, ou idiota, pelos seus parentes e amigos. Mas, do
ponto de vista do sábio, a situação se inverte e idiota é aquele que
fica preso à lógica do mundo externo.

A ciência parece reforçar o ponto de vista do sábio ao afirmar que,
realmente, usamos uma parcela muito pequena do potencial disponível
em nosso cérebro. Esse é um dado da natureza, e não adianta discutir
com a realidade. O problema não é, pois, que sejamos um tanto
limitados mentalmente. O lamentável é que, sendo limitados, nos
consideramos extremamente espertos. O filósofo Sócrates, escolhido
como o homem mais sábio da Grécia, explicou: "Eu e os homens notáveis
de Atenas nada sabemos, e a única diferença entre eu e eles é que eu,
nada sabendo, sei que nada sei, enquanto eles, nada sabendo, pensam
que sabem muito."

Há um fato que nem sequer os livros de inteligência emocional
confessam abertamente: quando se desperta a inteligência espiritual,
perde-se, irremediavelmente, a inteligência astuciosa que permite
coisas como mentir com habilidade, usar a lisonja na medida certa e
falar a verdade só quando ela traz vantagens.

Daí vem a sensação de nada saber diante do mundo. A expansão mística
da consciência traz consigo uma inocência idiota em relação à
realidade externa, e é por isso que os sábios renunciam à agitação,
preferindo uma vida retirada. Para alcançar a consciência celestial,
é necessário abandonar e perder a inteligência egoísta e assumir, em
certos assuntos, a aparência de um abobado.

O escritor sufi Idries Shah - um pensador místico do islamismo -
escreveu um livro intitulado A Sabedoria dos Idiotas. Na abertura da
obra, explicou:

"Aquilo que os homens de pensamento estreito imaginam que seja
sabedoria é freqüentemente considerado loucura pelos sábios sufis.
Assim os sufis, por sua vez, chamam a si mesmos de `idiotas´. Por uma
feliz coincidência, a palavra árabe que significa `santo´ (wali) tem
a mesma equivalência numérica que a palavra que significa `idiota´
(balid). Assim, temos dois motivos para ver os grandes sufis como os
nossos idiotas." (4)

Todo aprendiz da arte de viver deve libertar-se das chantagens
emocionais do que é "politicamente correto" e deixar de lado os
mecanismos da idiotice coletiva organizada, que forçam a formação de
consensos falsos com base em esquemas de poder.

Mas para fugir da idiotice coletiva organizada - com sua psicologia
de rebanho que proíbe o indivíduo de pensar por si mesmo - é
indispensável vencer o medo de que nos seja colocado o rótulo de
ovelha negra, ou de idiota. Só assim poderemos viver com
responsabilidade própria e independência pessoal, duas
características de uma vida valiosa. Há uma história de Ramakrishna,
o sábio indiano do século 19, que ilustra bem esse ponto:

"Era uma noite completamente escura, séculos atrás. De repente, um
sujeito acende uma tocha para iluminar seu caminho e vai até a casa
do vizinho. Ele quer pedir fogo, porque a noite está demasiado
escura. Depois de muito gritar e bater na porta, o vizinho finalmente
abre a porta, ouve seu pedido e responde: `Ah, ah, você é muito
imbecil! Raciocine! Você tem uma tocha acesa na sua mão!´ "

A moral da história é que todos nós corremos o risco de fazer como o
pobre coitado que bateu na porta do vizinho. A verdade eterna e a
fonte da felicidade estão em nossas próprias mãos. Só dependem de
nós. Mas às vezes insistimos em procurá-las nas coisas externas e
pedi-las a outras pessoas, renunciando à autonomia da nossa
caminhada.

Os sábios, como os idiotas, são íntegros. Eles não fingem que são
inteligentes e não têm medo de errar. Tentam, erram e quebram a cara.
Mas, quando acertam, são geniais. O idiota de hoje pode ser o sábio
de amanhã, graças à experiência adquirida. Em compensação, aquele que
não possui ânimo para tentar não tem chance alguma de aprender.

Por isso devemos criar uma cultura em que é permitido a cada um cair
e levantar livremente. Porque somos todos apenas aprendizes. Erramos
e aprendemos o tempo todo, e devemos estimular em cada ser humano a
coragem de buscar - mesmo tropeçando - os seus sonhos mais elevados.
Banindo da nossa cultura o medo do ridículo, cada um se permitirá um
pouco mais de deselegância - e de autenticidade - em sua maneira de
viver.

Notas

(1) Vidas de Grandes Romancistas, por Henry Thomas e Dana Lee Thomas,
Editora Globo, RJ-POA-SP, 1954. Ver p. 32.

(2) Einstein, a Ciência da Vida, uma biografia escrita por Denis
Brian, Editora Ática, SP, 1998. Ver pp. 1, 3 e 4. (3) Assim Falou
Einstein, coletânea editada por Alice Calaprice, Ed. Civilização
Brasileira, RJ, 1998. Ver pp. 64 (primeira frase da citação) e 63
(segunda frase).(4) Wisdom of the Idiots, Idries Shah, The Octagon
Press, Londres, 1991. Ver p. 5. 

Fonte: http://www.terra.com.br/planetana web/