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terça-feira, 24 de julho de 2007

Codificação da Umbanda

Codificação da Umbanda

Texto de Cavalcanti Bandeira

O texto abaixo foi publicado em 1973, no livro "O que é a Umbanda", Autoria de Cavalcanti Bandeira, Edotora ECO.

O objetivo de apresentar este texto não é de codificar e sim de apresentar uma visão no minimo interessante de alguém que muito participou, trabalhou e estudou sobre Umbanda. Também podemos observar que esta preocupação é antiga dentro da Religião, formalmente se pensa em "codificação" desde 1941 no primeiro congresso de Umbanda.

No longo caminho apontando aos crentes, a Umbanda marcha num sentido evolutivo para a realidade espiritual, porém necessita ter certa igualdade que possa servir de unidade doutrinária e permitir a prática semelhante em todos os Terreiros. Todavia, não deve incorrer no perigo de fixação em dogmas, tabus ou práticas ultrapassadas sem explicações lógicas ou aceitação de sua maioria.

O futuro exige a codificação do culto de Umbanda para não serem perdidos os trabalhos dos Pretos-Velhos e dos Ca­boclos, que tanto procuram ensinar aos crentes e dar uma orientação segura, capaz de evitar as mistificações e detur­pações desses que procuram viver às custas dos Terreiros ou dos que lá vão bus­car um alívio ou um conselho espiri­tual. Há ainda aqueles que teimam em ser diferentes e únicos. Realmente é difícil estabelecer normas básicas que possam servir de denominador comum aos cul­tos, como as práticas orientadas pelos en­si­namentos transmitidos pela tradição oral.

Necessita a Umbanda de ter uma li­tur­gia por todos aceita e seguida, senão, sofrerá as alterações naturais decorrentes dessa transformação oral do ensinamen­to, em função daquele que transmite e do que ouve.

Participando do II Congresso Brasi­leiro de Umbanda, reunido no Rio de Janeiro, em julho de 1961, concorremos com dois trabalhos; um com o título: “INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA E ETI­MO­LÓGICA DO VOCÁBULO UMBAN­DA”, o outro: “DOGMATISMO E HIERAR­QUIA”, que levados a plenário, foram amplamente discutidos e aprovados pelos Congressistas reunidos nesse conclave.

Apresentamos o trabalho sobre a palavra Umbanda, porque não era possível que se praticasse um culto, sem definir a origem etimológica e o signi­ficado original da palavra, em virtude de ser ponto básico definindo o sentido religioso. Nesse Congresso, fomos indi­cados para integrar a “Comissão Nacional de Codificação ao Culto de Umbanda”, e realizando-se a primeira reunião da Comissão em São Paulo, fomos escolhi­dos para o cargo de Relator de Religião que, se foi uma confiança depositada pelos codificadores, acarretou maiores encargos e responsabilidades pela extre­ma seriedade e profundidade do assunto.

Tivemos grande empenho para rea­lizar as tarefas, que não foram comple­mentadas no tempo previsto, de modo que proposto o III Congresso Brasileiro de Umbanda, para o ano de 1973, no Rio de Janeiro, fomos designados para presidir a Comissão Organizadora de tão importante conclave, que, no mesmo sentido, é mais uma busca de codificação dos cultos e união dos umbandistas.

Face às divergências encontradas e das dúvidas quanto às origens e fontes de onde surgiu o culto, que alguns pre­tendiam fosse hindu – sem justificar com dados concretos e seguros - , elaboramos um ensaio histórico, no qual condensa­mos nosso pensamento pessoal, porque sem a real raiz histórica não seria possível desenvolver o tema dentro dos fatos comprovados, evidenciando as fontes demonstráveis em trabalhos sérios e de outros autores insuspeitos e imparciais.

Demonstrando a antiguidade do homem e do conhecimento africano; a prática milenar de sua religiosidade e de suas iniciações; não quisemos e não queremos, absolutamente, levar a Um­banda para o africanismo, porque seria uma volta. Mas evidenciar sua origem em cultos que já de há muito tinham deli­mitadas a liturgia e a teogonia de modo preciso, servindo como base histórica, porque não foram inventadas e nem apareceram de uma noite para o dia, e sim, subindo a escada evolutiva que lhe permitiu a sucessividade continuada das épocas.

O roteiro histórico pé necessário pa­ra compreender a realidade panorâmica dos múltiplos rituais e feitios da Umbanda, como hoje é vista. As contribuições mar­cantes de cada origem e a evolução prin­cipal processada precisam ser apontadas, pois, seria emba­raçosa a tentativa de entendi­mento dos fundamentos iniciais e dos que se queiram imprimir aos rumos de uma codificação, ainda mais quando pretendem dar força a lendas não apoia­das pela tradição secular.

A realização do presente estudo exi­giu a leitura da maioria dos livros Umban­distas, entre­vistas com vários seguidores de diversas religiões e pesquisas em alguns estados do Brasil, inclu­sive pedidos de informações a conceituadas organiza­ções cul­tu­rais, notadamente de Angola, na África, e a pessoas de renome nesse cam­po. Como também a busca em livros sérios de pesquisadores e de outros que combatem a Umbanda, pois na­da afirma­mos sem uma base real; e não aceitamos certas invencionices e artifícios, fatos co­muns quando um assunto repousa em par­ce­las dispersas de ensinamentos ensombrados por lendas de múltiplas origens.

Julgamos isso importante para o conhe­cimento, porque, dá o sentido da realidade sedimentada através do tempo, embora as modificações decorrentes da evo­lução, do sincretismo e da diluição no passar dos anos, com a assimilação de outras idéias e conceitos dos grupos raciais em contatos que, por si sós, são suficiente para escurecer as origens, se vistas superficialmente. Como afirma o Dr. Oswaldo Santos Ribas, médico em Cu­ritiba: “Ao tratarmos de uma religião como a Umbanda, sincretizada das gran­des seitas que têm surgido e cujas ori­gens se perdem nos albores da civilização, nem sempre poderemos, quer pela socio­logia, antropologia, etnografia, história, etc., basear-nos nos fundamentos ditos cientificamente aceitos. A verdade é uma só: as leis divinas são as únicas imutáveis e a evolução é um dos seus máximos pre­ceitos. Nada se perde e tudo se trans­forma, diz a física. Igualmente, assim tam­bém é na espiritualidade e no estudos que nos propomos. Teremos de acom­pa­nhar as transformações sucessivas, ocorridas quanto o próprio modo de religar”.

Debatemos assunto com vários che­fes de culto e realizamos diversas confe­rências; agradecemos, pois, o auxílio da­do e a ajuda recebida, especialmente aos que contribuíram com seus conhecimen­tos iluminados pelas iniciações, esclare­cen­do temas tão controvertidos e ainda não definidos em vários pontos básicos. Falta uma unidade doutrinária, filosófica e cientifica do que a surgido em nossa literatura, que ressalta, apenas o lado fol­clórico, executando-se alguns livros dou­trinários de escritores umbandistas, e de estudiosos que procuram, com isenção de ânimos, encontrar a essência que se esconde em meio a problemática das apresentações.

Os diversos caminhos percorridos pelos umbandistas convergem para uma junção nos cultos praticados, con­cor­rendo, para isso, os livros e as confrater­nizações religiosas, como meios de uma aproximação efetiva e unificadora.

Muito livro há surgido sobre a Um­ban­da, cada qual tem o direito de apre­sentar o lado dessa problemática, pois con­venhamos, cada um lança um facho de luz ao alcance e gosto de determinado grupo, assim, também, desmancham tre­vas permitindo uma claridade em sentido unificador.

Tudo tem uma razão de ser, e cada um segue o caminho que se ajusta ao seu modo particular de ver e sentir, e através da palavra é que estabelece essa comunicação que une e congrega.

A Umbanda é uma vasta porta aberta pelos seus rituais, cânticos, sentidos de popularização e de que o homem participa e sente diretamente o atendimento ao seu caso; assim a individualização con­corre para uma diversidade de práticas, abrangendo todas as cultuações.

Nota-se, porém, que há uma linha de continuidade canalizando os vários aflu­entes de todas as origens para uma integração e uma uniformidade de des­tino num futuro próximo, sendo bem opor­tuna a comunicação de Ramatís, através de Hercílio Maes no livro “Mediu­nismo”, quando diz: “A Umbanda que ain­da não cimentou sua unidade doutri­nária definitiva, nem afirmou o seu sistema único de trabalho em todas as latitudes da orbe, através do seu sincretismo afro-católico, transforma-se num trampolim favorável aos católicos, protestantes e outros religiosos dogmáticos para se familiarizarem com os ensinamentos da Reencarnação e a disciplina da Lei do Carma.

As imagens, os cânticos, o incenso, as velas e as oferendas dos rituais de Umbanda, algo parecido aos usos da Igreja Católica, atenuam o medo pro­vinciano dos católicos pelas manifes­tações mediúnicas; e pouco a pouco incu­tem-lhes o gosto pe­lo conhecimento da imortalidade do espí­rito pregada por to­das as filosofias reen­car­nacio­nistas”.

“Os chefes, as falan­ges e a linhas de Um­ban­da, com seus caboclos, pretos-velhos e silvícolas ape­sar da multipli­ci­dade de costumes, tempera­men­tos e propó­sitos dife­rentes do serviço que exe­cutam junto à maté­ria entrela­çam-se por se­veros com­pro­mis­so, deveres hierár­qui­cos e obrigações espi­rituais, que ainda não puderam ser compreen­didas sa­tisfatoriamente pelos seus próprios profi­tentes. No vasto panorama de relações entre o plano material e o mundo oculto, alicerçados pelo processo da magia, no âmbito da Umbanda, ainda repon­tam combinações confu­sas e tolices conde­náveis, à conta de elevado come­di­mento espiritual. Ainda lutam os umbandistas para alcançar a sua cons­tituição doutri­nária e es­coi­marem-na das excre­cências ridículas que de­for­mam a sua base eso­térica.

Nesse terreno foi mais feliz o Espiri­tismo, que partiu de uma unidade con­creta e alicerçada por investigações incessantes, com “testes” mediúnicos que exauriram Kardec mas o ajudaram a ex­tir­par com êxito as con­tradições. Os exo­tismos e as encenações ridículas da prática mediúnica desorientada. A Umbanda, portanto, ainda é o vasilhame fervente em que todos mexem, mas raros co­nhecem o seu verdadeiro tempero”.

Nós mesmos sabemos de tanta coisa que se propala como Umbanda ou em nome da Umbanda; e outras práticas que todos nós condenamos, porque é preciso realmente sentir a Umbanda. Res­salta-se, assim, a necessidade de ter “a sua constituição doutrinária”, a sua codi­ficação básica, porém elástica em certos aspectos, tendo em vista a diversidade encontrada em certos aspectos, tendo em vista a diversidade encontrada que não permite, no momento, a rigidez re­gular de normas, especialmente, no to­can­te a certas alterações de ritual embora, este deva ter uma linha ajustável e sóbria, sem os exageros dispensáveis, que mais dificultam a fé do crente do que favorece o seu aprendizado, ou a difusão para obter adeptos.

Tem de ser o denominador comum, uma orientação ritualística aproximativa, porém dentro da firmeza filosófica-reli­giosa, de modo a evitar desuniões e inter­pretações errôneas, fazendo perma­nente esse pensamento codificador do Dr. Leopoldo Betiol médico e enge­nheiro em Porto Alegre: “Queremos ago­ra o que quisemos sempre: União, pro­gresso, entendimento, harmonia, con­córdia, paz; cooperação que sirva para erguer o nível mental da Umbanda, le­vando-a ao mais alto ponto de signi­fi­cação moral e doutrinária; isto que fize­mos nossa causa, que nunca foi uma ques­tão de pessoas que na altura do mérito sempre soubéramos louvar, acatar e respeitar. Aos que já revelaram sadia compreensão o nosso cordial muito obrigado. Sei que não faltam trabalha­do­res de boa vontade e muita fé, por isso mesmo, por causa da muita fé, a Umbanda gasta 60 anos para operar uma mudança do seu nível rasteiro suportando a crítica ferina dos impos­tores. É este vexame que nós queremos terminar se o irmão umbandista quiser cooperar”.

Não é coisa que se possa fazer de afogadilho, nem em prazo determinado. Prevendo a complexidade da matéria e vastidão do problema, apresentamos para o regimento interno da Comissão Nacional de Codificação do Culto de Umbanda, em 1961, a seguinte emenda:” O trabalho a ser apresentado pela Comissão será matéria para discussão e aprovação do Congresso Extraordinário, como anteprojeto de um código capaz de acompanhar a evolução e o aperfei­çoa­mento no decorrer do tempo”.

A preocupação constante de haver de uma orientação firme para a Umbanda se faz sentir há muito tempo. Já em 1939, João Freitas dá como diálogo, as suas idéias cometendo o fanatismo e o homem supersticiosos, que entravam o desenvol­vimento do culto. Afirma que o seu inter­locutor refere: “A necessidade de se ob­ser­var com precisão o ritual; e de ha­ver livros e organizações federativas ca­pa­zes de evitar as “literatices” prolixas e de­cepcionantes que se escondem em ora­tória e formas vocabulares em verda­dei­ra oscilação intelectual. Em suma, aca­bar-se-ão os charlatães, porque nin­guém se arvorará em chefe de terreiro sem es­tar devidamente munido de creden­ciais”.

Confirmando essa preocupação dominante, os umbandistas reuniram-se no Rio de Janeiro, em 1941, no I Con­gresso Brasileiro, quando iniciaram uma sistemática de codificação, ampliada com a realização II Congresso em 1961, a qual foi uma constante do temário do III Con­gresso Brasileiro de Umbanda, em 1973, pela preocupação máxima das Fede­ra­ções em obter uma estruturação adminis­trativa e religiosa como se evidencia no lema adotado: “Organizar para Unir”.

Em 1953, o livro de Emanuel Zespo, intitulado “Codificação da Lei de Umban­da” que, apesar de insuficiente, demons­tra a preocupação permanente dos since­ros, em querer estruturar os cultos exis­ten­tes, dentro de uma base coordenada evitando, assim, abusos e excessos.

Nessa mesma época, Lourenço Braga afirmava o seguinte: “Se a Umbanda fosse unificada, isto se todos trabalhassem nos mesmos dias, nas mesmas horas, da mesma forma, com o mesmo rituais, com os mesmo pontos riscados e os mesmo pontos cantados, (letras e músicas), etc., seriam os resultados de efeitos maravilho­sos, seria uma sinfonia perfeita de vibra­ções harmoniosas, cujas conseqüências, para os filhos da Terra, seriam surpreen­dentes e repletas de benefícios; devemos trabalhar para o progresso da Umbanda, mas de uma Umbanda como deve ser: isenta de materialidade, de ignorância, de atraso, de práticas condenadas pelo bom senso. Deve ser pura, elevada e evolucionista. Quando se atinge um certo grau de progresso espiritual, não é admissível se retroagir”.

O futuro exige a codificação para a Umbanda como culto organizado e não se tumultuarem os seguidores pela con­tradições de ensinamentos desordena­dos; nessa época com conhecimentos científicos em que tudo deve ser expli­cado à luz da razão. Com a realização do III Congresso Brasileiro de Umbanda, em Julho de 1973, foram adotadas resoluções importantes nesse sentido, especialmente em relação ao temário do referido conclave, que estava dividido em dois itens principais: Aspectos doutri­nários e filosóficos e aspectos administra­tivos e legais.

Foi, assim fundado um Ór­gão Nacional Interfederativo agrupando os Estados e Federações respectivas, visando uma estrutura administrativa me­tó­di­ca e uniforme para todo o Brasil, bem como foi adotado um só hino, e declarada a data de 13 de Maio como o Dia Nacional da Umbanda.

A codificação se impõe, especial­mente visando aos que abusam da credulidade alheia para a satisfação egoística e deturpada de interesses próprios, por vezes, menos confessáveis, colaborando para o mal maior. Porque sem amor ao interior que eleva e santifica, surge a hipocrisia de princípios para o uso externo, apenas convencionais, quando em seu interior procedem em desacordo com os ensinamentos da sã moral em seu verdadeiro sentido, pois só vale o sentir; e esse interno baseado na intenção do ato e, assim, as contas serão apreciadas apenas pela Justiça Divina, conforme as dívidas contraídas.

Os bons frutos só podem ser dados pelas boas árvores, de modo que se faz sentir a sintonia do médium em relação ao trabalho executado ou desejado como nos ensina Ramatís: “Cultive cada trabalhador o seu campo da meditação educando a mente indisciplinada e enriquecendo os seus próprios valores no domínio do conhecimento, multipli­cando as afinidades com a esfera Su­perior, e observará a extensão dos te­souros de serviço que poderá movi­mentar em benefício dos seus irmãos e de si mesmo. Sobretudo, ninguém me engane relativamente ao mecanismo absoluto em matéria de mediunidade”.

Esclarecendo que o valor real está na qualidade do médium, que deve ser tolerante e orientador, e não deve macular a sua vida com os interesses e caprichos de vaidade pessoal.

Não devemos esquecer um fato importante: Estamos vivendo uma reli­gião para o futuro e não para o momento presente, sendo assim, precisamos sentir o pensamento geral e a orientação se­guida; pelo menos o conteúdo doutri­nário e a orientação filosófica devem ser estudados e apreciados de modo seguro e preciso, porque a promoção é o meio visado para propagar as idéias e essas devem estar desenvolvidas, permitindo raciocínio em função da época cientifica em que vivemos e que possa, por todos ser compreendida, mesmo que não concordem com o explicado.

Dando uma apreciação de síntese, visamos principalmente a Codificação do Culto de Umbanda, mas a certeza de que o pensamento codificador se processará lentamente através dos anos, numa se­di­mentação que depende exclusivamente dos verdadeiros chefes de culto, aos qua­is cabe essa grande tarefa e respon­sabilidade, perante os crentes e a Lei Divina.

Julgamos ter cumprido a missão que, se melhor não o seja, vale pela intenção e o desejo de vencer a Causa. Procu­ramos transmitir a idéia de modo positivo e correto, sem quaisquer interesses pes­soais, ou desejos subalternos de evi­dências passageiras, pois estas se perdem no passar dos dias e se confundem no pó da estrada da vida, porque lampejam por instantes, sem a força esclarecedora que se proteja no tempo e no espaço.

Texto extraído do livro “O que é

a Umbanda” de Cavalcanti Bandeira – Editora Eco 1973.