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sábado, 28 de julho de 2007

Ouça Agora a Palavra das Bruxas

Bruxaria Tradicional e Bruxaria Neopagã
Por Robin Artisson
Tradução: Quíron

As Diferenças

UM PEQUENO ALERTA: Em geral, bruxos tradicionais tendem a desprezar a Wicca e, conseqüentemente, são um tanto agressivos ao falar do bruxaria moderna, conforme estabelecida por Gerald Gardner, em 1949. Este artigo de Robin Artisson segue essa tendência e, portanto, pode ofender alguns wiccanos que forem lê-lo. Porém, deixando de lado algumas das agressões do autor, é possível se aproveitar muito do texto, que explica com maestria quais são as diferenças básicas entre a Bruxaria Tradicional e a Wicca.

HISTÓRIA

A Bruxaria Neopagã, ou 'Wicca', teve o seu início nos anos 40 e 50 com os escritos de Gerald B. Gardner. Apesar de afirmar que era membro de um coven 'tradicional' que ele encontrou no sul da Inglaterra, faltam evidências da veracidade desta história. E se o 'coven' que ele menciona era autêntico, então pela sua própria descrição eles parecem ter sido um grupo eclético de maçons, hermetistas, rosacruzes e ocultistas, não verdadeiras bruxas 'tradicionais'. Os seus próprios registros das atividades e crenças/práticas do grupo testemunham isso. Não há dúvidas de que esta organização tinha tendências e ambições de 'reviver' a Antiga Arte, mas isto os coloca na categoria de 'pagãos reconstrucionistas' e não de 'Bruxas Tradicionais'.Wicca, no seu credo moderno e na sua estrutura ritual, lembra muito fortemente uma versão descristianizada da Ordem da Aurora Dourada (Golden Dawn), com muitas adições thelêmicas e teosóficas, assim como materiais obviamente emprestados de Aleister Crowley e da OTO. Todas essas fontes, e as personalidades envolvidas, floresceram na revivificação do ocultismo da primeira metade do século vinte e é do meio do século vinte que a Wicca data. A Wicca reivindica 'descender espiritualmente' das antigas religiões pagãs, mas o fato é o de que a sua estrutura ritual e a sua teologia não sustentam quase nenhuma semelhança com nenhuma cultura nativa pagã autêntica da Europa.A Bruxaria Tradicional, por outro lado, refere-se às crenças e práticas de famílias e organizações secretas da Arte que antecedem o século vinte. Normalmente, apesar de a doutrina e as práticas da Bruxaria Tradicional terem raízes em tempos muito antigos, o tempo mais longínquo que a maior parte das organizações tradicionais podem se datar com alguma exatidão é o século 17. Entretanto, o folclore e a história do século 11 em diante testemunham práticas similares àquelas transmitidas hoje pelas bruxas tradicionais

FORMALIDADE

A Wicca tem uma estrutura muito formal, baseada no modelo de 'três graus' de iniciação, um empréstimo óbvio da Maçonaria. A religião wiccana é muito hierárquica, com deslumbrantes títulos de 'Alto Sacerdote, Alta Sacerdotisa' e semelhantes e é normalmente orientado para o lado Feminino. Há apenas duas 'tradições' reais de Wicca... A Gardneriana (a original) e a Alexandrina... Mas desde a explosão do interesse pelo oculto nos dois lados do Atlântico, muitas tradições 'ecléticas' surgiram, representando quase todo tipo de distorção cultural e metafísica que você pode imaginar (Wicca Celta, Faery Wicca, Wicca Saxônia, Wicca Diânica etc. etc.)Na Bruxaria Tradicional, normalmente, não há uma 'estrutura' de grupo claramente definida. Se há, é apenas limitada a uma região, e normalmente não é rígida como a Wicca. Títulos não são tão utilizados, e quando o são, eles ainda são informais, se comparados à ênfase da Wicca em títulos. Os grupos tradicionais da Arte podem ter uma liderança, mas esta pode tanto ser masculina quanto feminina, e o seu poder como 'cabeça' de um grupo não é o poder exercido pela 'Alta Sacerdotisa' e pelo 'Alto Sacerdote' da Wicca. Conhecimento, experiência e a disposição de servir são fatores decisivos para a maior parte dos líderes de grupos tradicionais e não a egolatria, a coleção de títulos e a fome de poder.Os rituais e ritos da Wicca também tendem a ser muito formais e escritos previamente à mão... enquanto que na Bruxaria Tradicional, a maioria dos rituais são espontâneos e muito menos estruturados do que na Wicca. Há formas rituais, é claro, algumas formas até muito antigas, mas elas são muito parciais, muito abertas e simples. O 'nível interno' do ritual tem mais ênfase do que o externo no trabalho tradicional. A idéia é a de que não é como você faz algo, mas sim, porque você o faz.Na Bruxaria Tradicional, o progresso de uma pessoa é MUITO mais lento do que na Wicca, na qual uma pessoa pode ser 'um Alto Sacerdote de terceiro grau' no espaço que varia de alguns poucos meses a um ano ou dois, ou mesmo mais rápido se ele tem em mãos um livro publicado pela Lewellyn, que produz 'bruxas instantâneas'. Viver a vida, aprendizado e experiência são cruciais para um 'progresso' genuíno e 'iniciações' de verdade são geralmente experiências que acontecem a um nível pessoal, dadas por poderes do outro mundo, através do tempo. A Bruxaria Tradicional aceita isso.

TEOLOGIA NEW AGE

A Wicca tem muitos conceitos 'new age' no seu cânon que simplesmente não encontram lugar no contexto histórico ou cultural da Antiga Bruxaria Européia. Alguns destes conceitos estão listados abaixo:KARMA: este conceito hindu/buddhista foi levado para a Wicca por Gardner, provavelmente de uma fonte teosófica. Na Bruxaria Tradicional, 'Destino' é um conceito importante... mas 'karma' nem é citado. Não há a crença na Arte Tradicional de 'débitos kármicos' ou de 'karma carregado pela pessoa' devido às suas ações. A verdadeira crença da Arte Tradicional a respeito desses assuntos eram e são muito diferentes dos conceitos orientais de 'karma.'A LEI TRÍPLICE: Esta estranha noção não tem base na história ou na realidade. Enquanto que muitos povos em muitas épocas e lugares têm ameaçado poeticamente as pessoas com a idéia de que as suas ações retornarão a elas 'multiplicadas muitas vezes', a Wicca aceita isso como uma lei física e imutável. A verdade é que enquanto muitos wiccans abriram mão da crença no 'fogo do inferno e danação eterna' como uma barreira para as suas ações negativas, eles a substituíram para 'lei tríplice', que ameaça com uma retribuição tripla pela negatividade dos outros. Não existe nenhum traço de uma crença como essa na Bruxaria Tradicional ou em algum sistema de crenças nativo-europeu sobrevivente.DUOTEÍSMO: A crença wiccana determina que há apenas dois seres divinos, um 'deus' e uma 'deusa'. Os diferentes deuses e deusas cultuados pelos nossos ancestrais europeus, ou por qualquer pessoa na Terra, são considerados como 'aspectos' ou 'manifestações' destes dois seres. Assim, 'Todos os Deuses são um Deus e todas as Deusas são uma Deusa.' Este reducionismo divino é chamado de 'duoteísmo' e não tem precedentes nem na antiga Europa, nem nas crenças das bruxas tradicionais. É, de fato, uma crença moderna. Além do mais, muitos wiccanos acreditam que este 'Deus' e esta 'Deusa' são eles mesmo aspectos de uma unidade divina incogniscível, ou um incrível ser chamado às vezes de 'O Uno'... nos levando direto a uma versão new-age do Monoteísmo, muito bem adaptado a facilitar as consciências dos usualmente ex-cristãos convertidos à Wicca.Nossos ancestrais europeus eram politeístas. Eles acreditavam em muitos Deuses ou em Deuses locais. Isto é verdade para muitas Bruxas Tradicionais. Há algumas crenças agora (assim como nos tempos antigos) de algumas divindades sendo 'maiores' do que outras... quase ao ponto filosófico de transcendência e poder universal. Isto às vezes aparece também na Bruxaria Tradicional, mas na forma de mistérios e não na devoção diária ou no monoteísmo new-age.LIVRO DE SOMBRAS: Lixo. Na Wicca talvez o 'LDS' seja algo real, mas nos Antigos Dias, entre os praticantes tradicionais da Arte Secreta, ter evidências escritas do que você fazia era uma sentença de morte se você fosse pego. Além disso, a maior parte das pessoas antigamente eram completamente iletradas. A Arte Antiga era principalmente passada adiante oralmente e, se fosse escrita, isso teria que ser feito de forma econômica

ÉTICA

A religião Wicca tem uma 'Rede' ou 'regra de ouro' que forma a base da ética wiccana... ela dita o seguinte: 'faça o que quiser, desde que não prejudique a nada nem ninguém.' Esta é uma boa sugestão e é basicamente uma reformulação da 'regra de ouro' judaico-cristã. Entretanto, a Arte Tradicional não tem tal regra. A ética na Antiga Arte é completamente ambígua e regida pelas circunstâncias.Os wiccanos tratam esta 'Rede' como se fosse uma lei cósmica imutável, quando na realidade, 'Rede' é uma palavra anglo-saxã para 'conselho', e não para 'lei'. Mas para a religião wiccana é um dogma irremovível.Este assunto todo acaba sendo uma outra negação wiccan das trevas inerentes à natureza, a qual eu irei discutir depois. Danos e feridas, tudo isso existe na natureza... e nós, humanos, somos partes dela. Assim, danos e feridas fazem parte de nós. Nós matamos plantas e animais para comê-los. Matamos as bactérias da água para bebê-la. Vida alimenta a vida. A Bruxaria Tradicional é bastante orientada para a família e para a Fé. Se alguém ameaçar a família ou a Fé, então parar aquele que está causando a ameaça é a prioridade. Se isso significar prejudicar alguém, é o que as bruxas tradicionais farão e não nenhuma imposição ética contra isso. A Arte, e o poder que ela invoca, não é 'boa' ou 'má'... é ambas as coisas. Há um tempo e um espaço para cada uma das qualidades. Isso é difícil para new-agers entenderem, mas é simplesmente como as coisas são. Negar qualquer lado seu, ou da natureza, é afastar-se do mistério central: o da totalidade.