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segunda-feira, 2 de julho de 2007

Ogum ou São Jorge?

Ogum

Ele avança e até a terra treme.
Ogum com suas quatrocentas mulheres e seus mil e quatrocentos filhos.
Alguém algum dia falou enquanto ele falasse?
Todos viram os riscos de corça selvagem que ele tem na pele.
Toda aldeia onde pisa é um campo de guerra.
Ogum mata o rei e o povo e aí acampa.
Ele abre estradas por onde seus filhos passam.
Rei de Irê.
Rei que ri do ferro estorricando o falo do macho e a xota da fêmea.
Faz das cabeças dos adultos gongos e usa as das crianças como cabaças.
Ogum Iromejê passeia com uma serpente no pescoço.
Ogum onirê, meu marido.
Alguém algum dia ouviu sua voz suave?

Ricardo Aleixo

Me perdoem os puristas, ou todos aqueles que passam o tempo gritando que São Jorge não é Ogum, e questionando todo o sincretismo religioso existente no Brasil e em todos os lugares para onde foram levados negros, no Novo Mundo: hoje é 23 de abril e é dia de São Jorge, e, também, dia de Ogum.

É fácil dizer que não! Afinal, o que tem a ver um santo católico com um orixá africano? Originalmente, nada. Historicamente, são duas personagens distintas de povos distintos, que se encontraram aqui, em situações distintas, o santo católico dominador, o orixá africano, dominado, como seus filhos.

Jorge, da antiga Capadócia, região que atualmente pertence à Turquia, era um soldado do Império Romano, quando Diocleciano era seu imperador, lá pelo século III D.C. Filho de pais cristãos, aprendeu desde a infância a temer a Deus e ter em Jesus Cristo seu salvador.

Mudou-se para a Palestina, após a morte do seu pai, levando consigo sua mãe, e lá, devido as suas habilidades e sua dedicação, foi promovido a capitão, e recebeu o título de Conde. Aos 23 anos passou a residir na corte imperial de Roma, exercendo altas funções.

Nessa época, Diocleciano tinha planos de exterminar com todos os cristãos. No dia determinado para o senado confirmar o decreto imperial, Jorge levantou-se durante a reunião, espantado com aquela decisão e afirmou que os ídolos adorados nos templos romanos eram falsos deuses.

Jorge defendeu com ousadia a fé em Jesus Cristo, o que fez com que o imperador o tentasse dissuadí-lo de sua fé através de diversas torturas. Não tendo êxito, mandou degolar Jorge em 23 de abril de 303, em Nicomédia.

Seus restos mortais foram levados para Lídia (antiga Dióspolis), onde Constantino mandou erguer um suntuoso oratório aberto aos fiéis.

A devoção a São Jorge tounou-se, rapidamente, popular. Seu culto se espalhou pelo Oriente e, durante as Cruzadas, teve grande penetração no Ocidente.

São Jorge,cavaleiro corajoso, intrépido e vencedor; abre os meus caminhos, ajuda-me a conseguir um bom emprego; faze com que eu seja bem quisto por todos superiores, colegas, e subordinados; que a paz, o amor e a harmonia estejam sempre presentes no meu coração, no meu lar e no meu serviço; meus inimigos terão os olhos e não me verão, terão boca e não me falarão, terão pés e não me alcançarão, terão mãos e não e não me ofenderão.

São Jorge vela por mim e pelos meus, protegendo-me com suas armas.

O meu corpo não será preso nem ferido, nem meu sangue derramado; andarei tão livre como andou Jesus Cristo nove meses no ventre da Virgem Maria.

Amém.

No Século XII, a arte, a literatura e a religiosidade popular representam São Jorge como um soldado das cruzadas, com um manto e armadura com a Cruz Vermelha, montando um cavalo branco, de lança em punho, vencendo um dragão. E esta é a imagem que temos dele até hoje: Um guerreiro da cruz, derrotando o dragão do mal. No Museu do Louvre, em Paris, existe um famoso quadro de Rafael, intitulado “São Jorge vencedor do Dragão”. Na Itália, existem diversos quadros célebres, como o de Donatello.

Desde o século VI, houveram peregrinações ao seu túmulo, em Lídia, cujo santuário foi destruído e reconstruído várias vezes durante a história. Santo Estevão, rei da Hungria, reconstruiu este santuário no século XI e lhe foram dedicadas numerosas igrejas na Grécia e na Síria.

Esta devoção chegou à Sicília no século VI. No século VII o Papa Leão II construiu em roma uma ireja para São Sebastião e São Jorge. No século VIII o Papa Zacarias transferiu para essa igreja a cabeça de São Jorge.

Na Inglaterra, a devoção a São Jorge chegou no século VIII. No ano de 1101, o exército inglês acampou em Lídia, antes de atacar Jerusalém. A Inglaterra foi o país que mais se distinguiu no culto ao mártir. Em 1340, o rei Eduardo III instituiu a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge e o Papa Bento XIV fez de São Jorge o padroeiro da Inglaterra, cuja bandeira traz a cruz do santo. A Grécia seguiu pelo mesmo caminho e também tem a cruz de São Jorge na sua bandeira.

Na Alemanha, Frederico III dedicou a ele uma Ordem Militar. Na França, São Gregório de Tours era conhecido por sua devoção a São Jorge e o Reio Clóvis dedicou-lhe um mosteiro, e, sua esposa, Santa Clotilde, construiu várias igrejas e conventos em sua homenagem.

No mundo inteiro São Jorge é homenageado no dia de hoje, 23 de abril. É padroeiro da Inglaterra, de Portugal, da Catalunha, da Grécia, dos soldados, dos escoteiros, dos corintianos e cantado em vozes populares, como Caetano Veloso, Jorge Ben Jor e Fernanda Abreu.

A imagem que o retrata lutando com um dragão está relacionada às diversas lendas que o acompanham, e, serve, inclusive, para dar argumentos para tentarem provar que São Jorge nunca passou de um mito. Embora exista a suspeita da veracidade da sua história, a Igreja Católica reconhece a autenticidade do culto ao santo, mas não realiza cerimônias oficiais.

“A imagem atual é fruto de uma lenda. Isso não quer dizer, no entanto, que o santo não existiu e que o seu martírio não foi significativo”, diz o Monsenhor Arnaldo Beltrami.

O culto a São Jorge chegou ao Brasil com os portugueses (em 1387 Dom Manuel I já ordenara obrigatoriedade das suas imagens na procissão de Corpus Christi), mas, foi somente com o sincretismo religioso entre alguns orixás e o santo católico que sua popularização se tornou dominante. Outro grande elemento de popularidade do santo foi o Sport Club Corinthians Paulista, que escolheu São Jorge seu padroeiro em 1910.

São Jorge tem diversas representações nas religiões afro-brasileiras. Nos candomblés da Bahia é associado com Odé e Oxossi. No Rio de Janeiro, no Recife e no Rio Grande do Sul é associado com Ogum. O professor de Teologia da PUC, João Décio Passos, acredita que, atualmente, o culto a São Jorge esteja mais presente nos cultos afro-brasileiros do que no catolicismo. “A devoção ao santo chegou ao Brasil pelo catolicismo português, agora a divulgação foi feita pelo candomblé e pela umbanda, que associou a imagem do santo guerreiro e do dragão aos seus santos guerreiros”, explica.

O Espírito do Ferro

“Eu tenho sete espadas para me defender
eu tenho Ogum em minha companhia
Ogum é meu pai, Ogum é meu guia
Ogum é pai… Fica com Deus e a virgem Maria.”

O motivo para a identificação de Ogum com São Jorge é a ligação dos dois com a guerra. Mas as semelhanças terminam aí.

São Jorge é parte de uma cultura dominante, a cultura romana, e mais tarde a cultura católica, e, apesar desta cultura passar a imagem do santo como um defensor dos fracos e oprimidos, ele foi, na verdade, uma ferramenta de dominação, seja como soldado romano, seja como padroeiro de ordens de cavalaria, e suas funções primordiais: a dominação de povos desprotegidos, por exércitos potentes dispostos a conquistar riquezas, territórios e a impor a sua vontade.

Ogum, ou, como prefiro chamar, o Espírito do Ferro, que na África era cultuado sob diversos nomes, Gun, Ogu, ou outros nomes espirituais com sons semelhantes, simbolizando a passagem de uma Era a outra: da Idade da Pedra para a Idade do Ferro.

A profissão do ferreiro era considerada uma vocação sagrada, pois significava dominar a tecnologia para alcançar novas possibilidades, pois com o ferro não só era possível forjar espadas, mas artefatos agrícolas, que possibilitavam não só sua defesa contra o ambiente hostil, mas o domínio desse ambiente, para proporcionar maior capacidade de alimentação para a comunidade.

Segundo a lenda, Oxalá procurou fazer da vida na terra uma coisa organizada e falhou porque suas ferramentas eram inadequadas. Ogum, então, veio do céu, com o segredo do Espírito do Ferro e pode criar cidades no meio da selva. Mas mesmo assim, essa tecnologia não era muito eficiente, e, então, Orunmilá veio à Terra corrigir os enganos de Ogum. Podemos acreditar que essa intervenção esteja relacionada com uma orientação em termos de comportamento ético e conduta moral.

Quando dizemos que Oxalá veio para a Terra, estamos falando da manifestação do potencial de transformar o ambiente em algo harmonioso, que possibilite a convivência de todos, num equilíbrio ecológico.

É um pouco difícil traduzir a palavra ogun, mas temos conhecimento da palavra oogun. Oogun significa “medicina”, e a letra “O”, em iorubá, sugere que alguém é dono, ou domina algo. Podemos supor, então, que a palavra utilizada para medicina é “a dona de ogun”.

A medicina é algo que reestabelece a vitalidade, a saúde. De certa forma, temos ogun como sufixo de oogun, significando “fonte de vitalidade”. Na minha opinião, Ogum é uma referência linguística à sobrevivência. Poderíamos, afirmar, também, que esta sobrevivência está intimamente ligada à vontade de fazer um lugar melhor para si no mundo.

Podemos encontrar, também, um elemento de competição na palavra Ogum. Para termos sucesso na luta pela sobrevivência, é preciso muita vitalidade. A natureza nos oferece muita competição pelos recursos disponíveis. Aí, vemos, então, temos um conceito metafísico de Ogum, que se relaciona com a idéia de sobrevivência por ação afirmativa e agressiva. Esta é a qualidade de Ogum. É uma força dinâmica, afirmativa, agressiva e expansiva da natureza. Esta idéia antecede a idéia de Ogum como dono da tecnologia do ferro.

Se pensarmos em Ogum apenas como uma personagem que dominou o ferro e a tecnologia de fabricação de ferramentas, estamos divinizando apenas esse processo. Perderemos, então, a manifestação principal de Ogum, que é uma força da natureza.

No mito iorubá da criação, Ogum é controlado por Orunmilá. Isto nos indica que o comportamento agressivo não é ideal para a organização social, então, o comportamento ético tempera a conduta agressiva de Ogum como força espiritual.

Onde o poder de Ogum é necessário, precisa ser expressado em toda a sua essência.

Podemos ver a aplicação dessa energia nas comunidades iorubás tradicionais, onde Ogum sempre inicia a matança de animais. A caça desses animais também é associada a Ogum.

Devemos deixar claro, porém, que estamos falando de “sacrifício animal”. A palavra sacrifício é um termo cristão e não é traduzida por ebó. Não sacrificamos animais pelo simples prazer de matar. O conceito do ebó vai mais além, sugerindo um banquete para a família ou comunidade. Quando se vive num ambiente que depende de animais para a alimentação, matar o animal é sempre um ato sagrado, da mesma forma que caçar um animal é um ato sagrado.

Quando um sacerdote mata um animal, ele está pedindo que o espírito daquele animal possa reencarnar como outro animal e alimentar gerações futuras. Ele está fazendo um reconhecimento de que todas as coisas estão interligadas na natureza. O sangue é apenas um selo do ebó.

No Brasil temos a convicção de quanto mais sangue se usa, maior o poder. Daí vem a noção de que sacrificar um bode é bom, sacrificar dois é melhor. Perde-se o essencial, que é alimentar a comunidade.

Quando fazemos um ebó, estamos lidando com o poder de Ajala (palavra iorubá para Guerreiro). Na cultura iorubá tradicional, os caçadores também são guerreiros e Ogum também é um caçador. Ajala se traduz em algo como “Cachorro do Pano Branco”. O cachorro é um mensageiro espiritual, assim como Anúbis o é na cultura egípcia, e como existem outros cachorros em diversas mitologias. O Pano Branco é uma referência à luz e ao princípio de que tudo está interligado.

Na África, a cor de Ogum é o vermelho, de Xangô é o vermelho e branco e de Oxalá é o branco. O vermelho simboliza virilidade, agressão, vitalidade. Vermelho e branco simboliza equilíbrio entre agressão e compaixão e o branco simboliza a unidade mística. Estes orixás representam a continuação de um ciclo. A diferença entre eles é como a água da chuva, a água doce e a água salgada. São diferentes e partilham de um ponto em comum.

Em alguns lugares da Nigéria, Ogum e Xangô não são vistos como inimigos, mas sim como irmãos. É fácil ver porque. Xangô é fogo. O ferro temperado com o fogo se torna mais forte. Não existe hostilidade aí, existe sim, uma relação mutuamente benéfica. É uma força da natureza representando a fusão de energia sem hostilidade, e sim colaboração.

Ogum é o deus do ferro, dos ferreiros e de todos aqueles que utilizam esse metal. É também o deus da tecnologia, do progresso, dos mecânicos, dos engenheiros, dos inventores.